Enseada e aterro da Maxaquene - pré-aterro, mapas e situação actual - volume dos trabalhos (2/16)

Vamos aqui observar a zona do estuário antigo do Espírito Santo entre a cidade e a Ponta Vermelha em baixo da barreira, como surgia nas primeiras fotos feitas em Lourenço Marques, actual Maputo. 
Nas duas primeiras fotos do que é agora a zona oriental da Baixa, a cidade está ao fundo e a Ponta Vermelha está nas nossas costas. Esta zona litoral era entre lodo e lagoa segundo descrições várias e como se pode ver nas fotos tendo pouco declive as marés tinham um grande efeito.  
Na FOTO 2 tirada de cima da barreira nota-se actividade de pesca na enseada e que tinha sido construída uma estrada marginal junto à barreira, a partir da baixa até à Ponta Vermelha. 

FOTO 1 de 1909
Em cima da barreira após a sua curva e mais perto da Ponta Vermelha
À esquerda ao fundo: o porto e mais para a direita a baixa da cidade
Ao centro: a estrada marginal e os paços do concelho de 1901 ainda junto ao estuário

À direita: Entre a barreira e a orla do estuário havia uma zona plana 
que no máximo teria uns 100 metros de largura.
foto de delagoabayworld

Na FOTO 2 em baixo vê-se claramente a estrada marginal junto à barreira, a zona plana e o efeito da maré. Com a maré baixa grande parte da zona que veio a ser aterrada ficava à vista o que me leva a supor por alto que o aterro deve ter sido de talvez uns 2.5 metros de altura em média (ver no fim da mensagem). 

FOTO 2 de Lazarus publicada em 1901, tirada para a frente da posição da FOTO 1
A zona do estuário com maré baixa:
Laranja: postes no leito do estuário
A zona fora do estuário e que não foi aterrada mas foi alterada:
Vermelho: ponte / molhe do Allen Wack
Amarelo: Paços do concelho de 1901
Roxo:paiol de cerca de 1888/89
Azul: casas que devem ser as da Companhia das Águas (ver Mapa de 1903 em baixo)
Castanho: elevações sobre a maior das quais estava o paiol. Foram 
mais tarde retiradas e esse material serviu para parte do aterro.

Os postes no leito do estuário são a maior novidade em relação às fotos anteriores e não sei se têm a ver com o as obras do porto que tinham sido defenitivamente interrompidas em 1898/99 (marcas para a navegação não podiam ser porque aqui o mais que podiam vir era botes de fundo chato). 
Tendo com as três fotos acima visto a evolução da zona antes do aterro, graças à gentileza da Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da Universidade Eduardo Mondlane de Moçambique que as disponibilizou, iremos juntar uma sequência de cartas/mapas mostrando os planos que se foram fazendo até que se concretizaram no desenho do actual aterro da Maxaquene e que acabou por ser construido por volta de 1920. Clique nas cartas-mapas para ver com resolução completa.

Mapa 1 de 1903 - ainda sem aterro nem planos para tal
Limite de terra à esquerda: o quarteirão da Fortaleza 
e do ex Pendray e Sousa e onde tinha sido a feitoria do Allen Wack 
de que se vê o pontão penetrando no estuário para sul. 
Vamos usar esta referência nos mapas todos para direcção norte-sul à esquerda. 
Ao centro: Ponto mais a norte da barreira e essa curva serve para
 nos referenciarmos nas FOTOS 1 e 2 de cima, juntamente com 
as casas da Companhia das Águas aí colocadas.
À direita: obras do porto que parecem ser dum plano antigo
 que não avançou (veremos em baixo melhor) 

Mapa 2 de 1906 - aterro previsto (reclamation area) 
e a ser limitado por um cais (extension of quay)
À esquerda: O aterro começaria no limite de terra na base do 
pontão do Allen Wack. Esse pontão estava como no mapa de cima. 
Isso queria dizer que essa zona não tinha sido aterrada ainda.

O mapa/plano seguinte é de autoria do Eng Costa Serrão. Estava mais pormenorizado o planeamento para a zona com o aterro, ruas e praças, armazéns e cais pois estava previsto que o o atreeo fosse fechado com um cais fazendo parte do porto. Sobre esse plano Alfredo Pereira de Lima (APL) na sua "Obra Pedras Que Já Não Falam", páginas 215 a 218, no capítulo sobre o Farol da Ponta Vermelha escreve o seguinte: "Esse plano (para o porto de) Costa Serrão era constituído fundamentalmente por um cais rectilíneo, com o comprimento total de 3 700 metros, estendendo-se desde a Ponta Vermelha à zona das estâncias (muito para oeste, os cais só chegaram lá dezenasde anos depois) e cortado na parte central por uma doca - a actual doca da Capitania - separando o cais em duas secções. Este conjunto portuário comercial dispunha de uma instalação oficinal de reparações terrestres e navais, compreendendo docas secas, uma para navios de longo curso e outra para pequenas embarcações que o engenheiro situava cerca da área onde se encontra o último prolongamento ao cais Gorjão desembocando ambas numa bacia de abrigo".
Concluía APL que "o plano, ligeiramente alterado, teve imediata execução" mas se é verdade que a enseada foi fechada pouco anos depois, quanto ao seu limite do lado do estuário o que foi realizado (Mapas 4 e 5) divergiu bastante do que Costa Serrão tinha planeado como veremos abaixo.

Mapa/Plano 3 de 1909 - Planta geral do Porto pelo Eng. Costa Serrão
Aterro: planeado para a área pintada a côr de rosa
Verde e carmesim: limite previsto para o aterro, ver em baixo
À direita do cais: planos para a doca de barcos de pesca
Linha serpenteando: Zero Hidrográfico na parte de baixo

Quanto ao aterro, à sua esquerda pode ver-se que ele começaria para sul do que estava previsto no mapa de 1906. Isso porque como se pode ver a zona da Fortaleza <-> Allen Wack já estava afastada do estuário devido aos primeiros aterros feitos nessa zona sul do centro da cidade. Com os novos planos, o pontão do Allen Wack iria ser absorvido no aterro a ser feito aí.
Quanto à urbanização prevista em 1909 pouco foi realizado exactamente como previsto. Por exemplo aí seria a actual Rua de Timor Leste a ser prolongada até à rotunda à direita (na ponta leste do aterro) e sabemos não foi assim que se fez.
Passamos à situação depois de ter sido feito o aterro com dois mapas:

Mapa 4 de 1925 (com linha de Zero Hidrográfico em baixo)
À esquerda: sem alteração em relação ao Mapa de 1909. 
Os aterros estavam aí concluídos e assim permaneceram até hoje.
Linha da ex Av da República (actual 25 de Setembro): está marcada 
como agora existe, a apontar para as proximidades da doca do Clube de Pesca. 
A actual Rua de Timor Leste deixava de ser o eixo central oeste-este
 para o aterro como tinha sido previsto no Mapa/Plano 3 de 1909
Indicação do ruro-suporte no limite sul do aterro: menos penetrante
 no estuário do que no plano para muro-cais de 1909

Do lado direito da enseada vê-se que no que foi feito (Mapa 4) e em relação ao plano de Costa Serrão (Mapa 3) que a doca ficou um pouco mais curta (essa acabou por ser a doca do Clube de Pesca Desportiva). Mas a diferença principal desse lado direito da enseada é que o muro que foi feito ficou muito mais próximo da barreira do teria ficado no plano de Costa Serrão em que um grande aterro teria surgido logo abaixo da Ponta Vermelha (ver a distânca da mancha escura = barreira ao muro nessa zona). E isso aconteceu porque Costa Serrão planeava que o muro-suporte do aterro ficasse em linha com a ponte-cais Gorjão já existente desde 1903 frente à Baixa comercial da cidade (à esquerda da enseada) de forma a que se fosse procurar à direita mais profundidade de modo a funcionar também aí como ponte cais. Como isso não foi feito (Mapa 4) não foi possível ter cais do lado onde foi fechada a antiga enseada.
Neste artigo comparo em detalhe essas duas opções e falo também do Zero Hidrográfico que é a linha irregular que aperec no estuário nos Mapas 1 e 3 e das marcas Verde e Carmesim do Mapa.
O Mapa 5 seguinte é um pouco posterior ao Mapa 4 mas como os trabalhos na  zona do aterro estavam terminados há alguns anos no aspecto da posição efectiva do muro-suporte do aterro eles são equivalentes

Mapa 5 de 1925/26

A única alteração em relação deste Mapa de 1925/26 em relação ao Mapa 4 de 1925 
parece ser aparecer detalhada a urbanização do aterro.

FOTO 3 de Google Earth actual
Pode-se confirmar que o limite sul da Cidade de Maputo
 neste lado a nascente = este da Baixa é igual ao do MAPA 4 de 1925.  

Como iremos vendo aqui em pormenor, os trabalhos de aterro deste "trapézio" entre a orla inicial do estuário (que estava perto da barreira actual) e a muralha da actual Av. 10 de Novembro foram feitos há mais de 90 anos.
Refazendo umas contas por alto, se considerarmos que a zona aterrada é um trapézio com 1 600 m de comprimento na base maior (este-oeste), 600 m de comprimento em cima (também este-oeste) e 400 de largura máxima (norte-sul ou muralha-orla) e que foi aterrado de modo a ficar na horizontal com 1 m de cota na antiga praia perto da barreira e com 7 m de cota junto à muralha actual, o volume do aterro foi de cerca de 3 milhões de metros cúbicos. Donde veio este material inerte? Uma parte veio do alisamento de elevações existentes onde agora estão a piscina do Desportivo e o pavilhão do antigo Sporting (ver FOTO 2, na zona das marcas castanhas), outra parte veio de escavação da barreira que recuou bastante nalgumas partes e outra parte de dragagens no estuário. Construir este aterro foi um trabalho exigente com os limitados meios da época e actualmente esse trabalho é pouco visível dada a construção generalizada na zona desde há cerca de 10-15 anos.

Comentários

Excelente trabalho, cuidado meticuloso e exacto na apresentação geográfica e histórica do lugar que muito aprecio. Pelo o que vi até agora, felitações e obrigado. Quanto às fotos dos edifícios e á arquitectura da cidade, a qual tem chamado a atenção de muitos e muito além do espaço Lusofónico, vendo e recordando o que era e o que é, pergunto-me se "Housesofmaputo -Edifícios e infraestruturas do passado de Maputo (ex-Lço Marques)" should it not be called.....
"HousesofLourençoMarquesinMaputo" tendo em memória aqueles que as construíram e que das mesmas foram desapossados!
Mais uma vez, obrigado.
Rogério Gens disse…
Caro Jorge: Obrigado pela apreciação positiva mas como bem sabemos o "meticuloso" também pode ser um defeito e como eu não sei para quem escrevo sinceramente acho que para leitores "normais" por vezes exagero. Quanto ao nome foi escolhido em 5 segundos por isso não se pode exigir muito :-). Mais a sério quanto ao sub-adjacente se o blogue tiver feito compreender a pelo menos um leitor que qualquer construção humana que existe foi porque alguém se esforçou a construi-la (e no que respeita à cidade a minha família que eu posso referir directamente é uma gota de água nesse oceano), já me darei por satisfeito pois espero terei melhorado o mundo um bocadinho. Pode parecer óbvio que só com esforço se conseguem fazer coisas, mas infelizmente não é. Cumprimentos e obrigado.
João Chivale disse…
Estou, simplesmente, maravilhado com estas notas do blog housesofmaputo.
Sou um jovem residente em Maputo, confesso que sabia nada da história da nossa capital. É arrepiante saber que grande parte da baixa da cidade era um pântano e que foi feito o famoso aterro da Maxaquene (ouvia falar, mas não sabia o porquê de tal designação).
Afinal existiu um Pavilhão do Chá da Polana, bem próximo ao Clube Naval? Afinal existiu a praia da Polana? Hoje, com a subida do nível das águas do mar, é impossível nadar por lá. Ou seja, a praia da Polana foi engolida.
Gostava de ver algumas histórias sobre a edificação da parte alta da cidade.
Meu muito obrigado.
João Chivale disse…
Os meus parabéns por esta obra, housesofmaputo. É algo maravilhoso, que nos permite conhecer a história da De Lagoa Bay, Lourenço Marques, hoje Maputo.
Sou residente em Maputo, confesso que pouco ou nada sabia da história da edificação da cidade. O aterro da Maxaquene? Que obra!!! Ouvia falar, mas não percebia a razão de tal designação. Afinal, grande parte da baixa da cidade era um pântano, pelo menos até antes de 1919?
Afinal existiu a praia da Polana, onde se destacava o imponente Pavilhão do Chá (não sabia que existiu algo assim naquela zona)? Ganhei gosto pela história da bela cidade das acácias.
Em jeito de pedido, gostava de ver algo relacionado com a edificação da parte alta da cidade.
Meu muito obrigado, pela obra.
Rogério Gens disse…
Caro João: Obrigado pelo seu comentário e percebo bem a sua felicidade porque a mim sucedeu o mesmo quando também achei ou descobri essas coisas. Quanto à sua questão sobre a parte alta da cidade leva-me a pensar nisso e a explicaçao será que por aí não havia dificuldades geográficas e por isso de cosntrução a ultrapassar. Quer dizer os antigos fotografaram e escreveram mais sobre o que era mais difícil de fazer, como aí se vê o Caracol, estradas marginais, drenagem do pântano, os aterros e o porto. Se quer orientar melhor as suas leituras pode ir à barra do lado esquerdo onde está ARTIGOS POR TEMAS e aí seleccione o tema (etiqueta) que lhe interessa e aparecem-lhe artigos relacionados. Mesmo que que não esteja completo será uma grande ajuda para si. Cumprimentos.