Caminho de ferro entre Lourenço Marques e Pretória - Coronel Edward McMurdo (1842-8.5.1889)

Edward McMurdo (1842-1889), norte americano, foi militar na Guerra Civil que devastou o seu país do lado dito "bom" (União) e no decorrer de uma vida empresarial preenchida propôs e foi-lhe outorgada a concessão para construir e explorar o lado português da linha de caminho de ferro entre Lourenço Marques e Pretória. 
Essa iniciativa correu-lhe muito mal como temos visto e provávelmente foi a causa mais directa da sua morte que aconteceu precisamente à época da nacionalização da sua companhia. 
Na net não aparecem fotos de McMurdo mas nas de Fowler, o presumível agrimensor-fotógrafo que acompanhou os trabalhos da linha e produziu o álbum Views of Lourenço Marques (Delagoa Bay) and Transvaal Railway, há várias com personagens mais ilustremente vestidas do que as que temos visto até aqui (a excepção eram os gentlemen mas esses deviam ser pessoal intermédio da companhia) e onde em princípio McMurdo poderia estar.
É o caso da foto seguinte:

FOTO 1
Grupo sobre a linha de Caminho de Ferro com um grande rio à direita
 e linha de montes ao fundo

Ora Alfredo Pereira de Lima (APL) na obra "História do Caminho de Ferro em Moçambique" apresenta esta fotografia exactamente com a legenda seguinte "Colocação do último carril na terminal do Incomáti, em 1888. Ao centro, provávelmente, o Coronel McMurdo".
Sabemos que APL ao tempo da preparação dessa obra por volta de 1970 pertencia os quadros dos CFM e que teria acesso a toda a documentação disponível na companhia. Sendo assim posso deduzir que APL não conseguiu certificar em outras fotos se nesta estava de facto McMurdo e também não sei dizer se APL teve a certeza de McMurdo se ter deslocado a Moçambique nessa altura ou não.
Sobre quem está ao centro, APL refere-se certamente ao senhor de gabardina (era perto do início de verão e podia estar chuvoso) e capacete colonial e que podemos confirmar ocupa também na FOTO 2 em baixo posição de destaque.
Quanto a outros elementos da legenda de APL e da foto, o grande rio à direita será o Incomáti e "terminal do Incomáti" refere-se na generalidade a essa posição onde a linha depois de atravessar a zona de savana árida a partir do Rio Matola e passando pela Moamba atinge o rio e foi construida na sua margem sul/leste. "Terminal" pode referir-se ao facto de McMurdo pensar que a construção da linha terminaria aí ou ao facto de estar aí prevista a penúltima estação que seria chamada Incomáti. 
Repare-se no que me parecer ser uma moça com um martelo com o que se simbolizaria o fixar dos carris nessa posição. Ponho a hipótese de ser a filha de McMurdo, Agnes de McMurdo, de que em baixo mostro a notícia de que se casou em 1890, ou seja 3 anos depois desta foto (aqui filha única).
Como a construção da linha chegou ao rio Incomáti no final de Novembro de 1887 e a inauguração foi no início de Dezembro de 1887 suponho que a foto seja de Dezembro de 1887 e não de 1888 como APL disse.
Se fosse mesmo no local da futura estação, estaríamos a cerca de 1.5 km para a frente = para oeste do ponto onde a linha vinda da costa e atravessando o interior atinge a margem direita do rio e pela qual seguirá até à fronteira (aqui a estação de Incomati no lado superior esquerdo com a linha junto ao rio e ela a afastar-se dele lado inferior direito em direcção à Moamba). 
Reelembro que McMurdo tinha estado convencido que a linha iria terminar nesse ponto mas concluíu-se depois que ele afinal ficava a 8-9 km do que foi depois definido entre Portugal e África do Sul seria a fronteira, ponto de discórdia que acabou por ser fundamental e que detalharemos mais em baixo. 
Como já disse o rio nesta secção vai aproximadamente na horizontal em Moçambique (mais ou menos sobre o eixo leste-oeste) e vai cortar a fronteira que fica sobre o eixo norte-sul. Isso quer dizer que as duas margens do rio que se veriam na FOTO 1 se a localização estiver correcta e o que estaria daqui para a foz do rio e o daqui para montante por mais uns km eram território português, agora de Moçambique. Na FOTO 1 para o fundo vê-se, a alguns kms de distância, uma linha de montes que será dos Libombos e que fazem de fronteira entre de Moçambique e a África do Sul nessa zona.
Passamos a outra foto com um grupo (e a esta foto APL não se referiu a propósito de McMurdo) e onde se vê de novo o provável McMurdo em posição central e que será na mesma margem do rio Incomati da FOTO 1:

FOTO 2
O provável Coronel McMurdo da FOTO 1 aqui com o mesmo traje
mas com um grupo que parece diferente

A FOTO 2, que voltamos a ver deste artigo, presumo que tenha sido tirada de cima duma locomotiva por isso que no limite teria ido até ao ponto da FOTO 1 que era dito ser um "término".
A foto seguinte do Google Earth actual com o vale do Incomáti nesta zona dá melhor ideia de onde as FOTOS 1 e 2 devem ter sido tiradas, a FOTO 1 próxima do ponto amarelo e a FOTO 2 na zona entre o ponto azul e o amarelo, a distância entre esses dois pontos sendo aproximadamente de 1 500 metros.

FOTO 3
Azul: onde a linha férrea vinda da Moamba (e passando por Movene) 
atinge o rio e muda curva ligeiramente para a esquerda
Amarelo: estação de Incomáti, onde McMurdo básicamente terminou a construção

Na FOTO 2 pode observar-se que a linha ficava bastante acima do nível do rio pelo menos nessa época do ano. 
Um ponto importante do que se passou entre a inauguração em Dezembro de 1887 e a nacionalização em 25 de Junho de 1889 foi que finalmente em Outubro de 1888, após ter definido com o Transvaal o ponto de ligação na fronteira, Portugal deu o ante projecto dos 8-9 kms finais a McMurdo para que o finalizasse e executasse nos 9 meses seguintes. 
Mas durante o período final de 1888 e na primeira metade de 1889, da estação de Incomáti para a frente a companhia de McMurdo fez simplesmente pesquisa do traçado nuns 3 km, limpou cerca de 1 km de mato e destruiu algumas rochas no trajecto, ao longo da margem sul do rio. A companhia básicamente esperava a chegada de novo empreiteiro que viria de Inglaterra para completar a linha até à fronteira. Essa inactividade foi oficialmente a principal razão para a nacionalização por Portugal mas quando explicou à Inglaterra a sua versão do que tinha levado a isso, a companhia (McMurdo tinha falecido) disse que mesmo que se tivessem construído os 8-9 km finais de nada teria valido porque o plano português não era apropriado. De facto disse a companhia que a cheia desse ano (princípio de 1889) tinha nalguns pontos sido 10 a 20 pés (3 a 6 metros) acima do nível definido no plano português para a linha, que a esse nível tinham aparecido novas rochas (não se sei se arrastadas pelo rio ou caidas das encostas) e que por isso a linha não teria resistido (para além da interrupção de tráfego que teria acontecido até as águas baixarem). Daqui se subentende que para a companhia a sua inactividade não tinha causado atraso na prática pois se esses 8-9 km tivessem sido construídos teriam de ser reconstruidos (e pagos de novo) de qualquer maneira. E por aqui a companhia também justificava o atraso no cumprimento dos 9 meses dizendo que depois da cheia tinha recomeçado a planear a linha mais acima do rio e que iria ser mais difícil construir a esse nível porque ia encontrar mais rochas, etc. Por isso tinha concluido que precisava de mais três meses que tinha solicitado mas que Portugal não concedeu. 
Conclusão como já disse um caso bastante complicado e alongo-me sobre esse tema da nacionalização aqui, aqui e aqui.
Mas voltando às imagens, é de notar que as cheias do rio neste local podem (podiam?) ser impressionantes e que a linha férrea actual é capaz de ter ficado bem acima do nível do grupo da FOTO 2. Dessa foto pode-se imaginar a que nível estaria a linha inicialmente e do texto anterior comprender-se que ele não tivesse sido, à primeira, suficientemente alto para escapar das cheias pelo que teve de ser levantado após a nacionalização. 
Juntando as duas imagens de cima relativas ao que parece ser o "big boss":

MONTAGEM
Edward McMurdo, provávelmente, em duas fotos de Fowler.

McMurdo nasceu em 1842, em 1887 à data destas 2 fotos teria 45 anos e parece estar nessa faixa etária o que parece confirmar a informação dada por APL na legenda da FOTO 1. 
Quanto ao título de Coronel, pela curta descrição da vida militar e pela longa da vida civil que aparece na biografia em baixo e pela idade, acho que as promoções de McMurdo devem ter sido aceleradas mas ...
Agora detalhes da impressionante história de McMurdo do livro Historical Dictionary of the British Empire, volume 2
Página seguinte do livro não disponível gratuitamente

Relacionado com esta linha férrea o mais interessante do texto acima é ele primeiro ter tentado fazer a linha do lado boer (sul africano). 

Podemos conhecer mais detalhes sobre McMurdo aravés da biografia da sua esposa Katherine, também norte-americana, indicando-se aí que ela era uma personalidade socialmente importante em Londres onde residia desde 1881, a época mais relevante para a actividade do esposo relacionada com Moçambique. Foi ela que como viúva e herdeira do maior acionista liderou a disputa com o governo português relativa à nacionalização e indemnização da companhia.

Wikisource - mulheres do século
"McMURDO, Mrs. Katharine Albert, social leader, was born in the "Beckwith Homestead," the beautiful home in Palmyra, N. Y., of her grandfather, Col. George Beckwith. Her maiden name was Katharine Albert Welles. Her youth was chiefly spent in New York City, where her parents, Albert, the historical and genealogical writer, and Katharine Welles, resided, and where she became the wife of Col. Edward McMurdo, a brilliant Kentuckian, who fought for the Union throughout the Civil War. 
In 1881 they took up their residence in London, where Col. McMurdo engaged in such important and far-reaching enterprises as to make his name a familiar one throughout the financial world. He was one of the earliest to recognize the commercial and financial possibilities of South Africa, and his investments and enterprises in that country gave him almost the importance and power of a potentate. 
Their mansion in Charles street, Berkeley Square, a survival of the time of William III, into which they had introduced many modern comforts and luxuries, became the center of a generous hospitality, where scholarly, agreeable people, distinguished in letters, art or science, men notable for civil or military services, or for lineage and position, found congenial association. 
Ever a devoted student of the best books, with a mind enriched by extensive travel, a residence in foreign capitals, and acquaintance with intelligent society, with a brilliant conversational gift, and a fascinating personality, she soon won a host of devoted friends. 
The happy home in Mayfair received an awful shock in 1889, when Col. McMurdo died, without a moment's warning, from the bursting of a blood-vessel in the brain.  The Portuguese government took advantage of that event, and seized the Delagoa Bay Railway, an important line traversing the Portuguese territory in southeast Africa, from Delagoa Bay on the coast to the Transvaal frontier, which Col. McMurdo had built under a concession direct from the king of Portugal, and which from its unique position gave the man whose courage and enterprise had prompted its construction a power sufficient to arouse the envy of the Portuguese government and people. 
The seizure was made under the flimsy pretext of a technical breach of contract, and was such a high-handed outrage that the English and American governments took prompt action to protect the interests of Mrs. McMurdo and those associated with her husband in the ownership of the railway. 
Portugal admitted its liabilitv and joined with the United States and British governments in asking the Swiss parliament to appoint a commission from the leading jurists to enquire and determine the amount of indemnity to be paid tor the railway and the valuable rights conferred by the concession. That being one of the interesting diplomatic incidents of the day, with ... (o resto do artigo não se vê)."
Katharine Wells McMurdo, herdeira da companhia. 

Katharine ficou viúva só nos 4 anos seguintes pois voltou a casar em 1892, com um futuro embaixador dos EUA, Frederic Courtland Penfield (aqui).  

Mais sobre Katharine Albert McMurdo - wikitree

Mais notícias da família McMurdo
"New York, Dec. 28 (provávelmente em 1889) - The Evening Sun publishes a long and somewhat sensational statement in regard to possible difficulties between this country and Portugal. The substance of it is the Mrs. McMurdo of Buffalo, N.Y., widow of the late Col. McMurdo, an American citizen who organized an English syndicate and built the Delagoa railroad in African territory, now claimed by Portugal, recently waited upon Secretary Blaine, accompanied by a Western New York congressman as friend and counsel, and submitted to the secretary convincing proofs that the property rights of Col. McMurdo are being disregarded by Portugal. The secretary invited explanations from the Portugese government, but received no satisfactory response, whereupon he sent the squadron of evolution to Lisbon instead of to Havre as at first intended, and notified Lord Salisbury that the United States is ready to co-operate with Great Britain in forcing Portugal to respect the rights of foreigners in the territory referred to. Lord Salisbury at the same time ordered four British men-of-war from Malta to Lisbon".

Em suma: o RU (investidores minoritários e bancos e detentores de obrigações que financiaram companhia seriam britânicos) e os EUA (país da nacionalidade de McMurdo e da esposa e herdeira) exerceram pressão militar sobre Portugal para que este "ponderasse" bem o caso o que por fim conduziu à sua submissão a Tribunal Arbitral na Suiça.
O referido "squadron of evolution" da armada dos EUA, constando de vários navios, como é descrito aqui na wikipedia aportou a Lisboa precisamente entre o final de 1889 e o inicio de 1890. Essa presença é aí apresentada como fazendo parte dum exercício naval ("subtilmente" modificado da França para Portugal?) e de visita de cortesia mas no contexto que aqui seguimos percebe-se que foi uma demonstração de força. Essa esquadra partiu de Lisboa a 19.1.1900, presumo que por Portugal ter já dado sinal firme de ter compreendido a sua mensagem. 
Por seu lado os quatro "men-of-war" enviados pelo RU para Lisboa eram fragatas, navios de guerra poderosos, e aparentemente deslocaram-se sem "eufemismos" sobre o motivo da deslocação.
Tratava-se da chamada "diplomacia da canhoeira" e depois os anti ainda dizem que o Trump "rasgou séculos de prática dos EUA nas relações internacionais" ::)). 
Este decidido envolvimento militar da maior potência marítima e mundial co-adjuvada por uma potência emergente dá para perceber a importância deste caso e por isso da linha de CF de LM no cenário internacional, político e económico, da altura. 

Indiana Democrat, Indiana, Pennsylvania, dated 21 May 1890
"Monday, May 18, Miss Agnes de McMurdo, daughter of the colonel of that name of Delagoa bay fame, has left Berlin for London, where she will shortly marry Mr. Silver, of Baltimore."
No artigo seguinte faremos referência ligeira a Agnes McMurdo.

Disclaimer: O HoM é um blog de amador, que não tem a pretensão de ser preciso nem de se comparar ao trabalho dos historiadores profissionais, para mais num tema tão complexo. 

NB: Para cobrir várias possibilidades nas pesquisas em linha estas são possíveis variantes que encontramos do apelido McMurdo: Mc Murdo, Mac Murdo, MacMurdo

Comentários