Barracas para Hospital na encosta da Maxaquene de LM cerca de 1882

Continuamos com fotos da Universidade do KwaZulu-Natal - Campbell Collections e a que aqui veremos mostra uma das primeiras construções efectuadas na então vila de Lourenço Marques (LM), actual Maputo pela expedição das Obras Públicas de Portugal chegada a Moçambique a 7 de Março de 1877 e chefiada pelo na altura Major Joaquim José Machado


FOTO 1
Legenda original: antigo hospital de Lourenço Marques (LM)
Para o fundo da paisagem viamos a Baixa de LM, uma "ilha" ainda rodeada do lado de cá = norte por uma faixa de pântano embora já estivesse em processo de drenagem. Do lado direito e a nivel mais baixo do que o terreno em primeiro plano onde estão as barracas ou cabines, vê-se a fachada lateral da Igreja Paroquial que sabemos estava onde agora é o Palácio da Rádio Moçambique e por isso podiamos acrescentar à legenda original da FOTO 1 que o local era na encosta da Maxaquene. Pela foto podiamos dizer que a fila das barracas à vista parecia estar paralela ao corpo central da igreja mas a umas 3 ou 4 centenas de metros de distância. 
Noutra foto da Campbell Collections que foi tirada no estuário um pouco para montante da Fortaleza vê-se a encosta da Maxaquene com estas barracas sendo aí a primeira vez que as vejo em conjunto alargado: 


FOTO 2
Castanho: pano a oeste da fortaleza virado para a Praça de quando tinha janelas
Carmesim: 
barracas da FOTO 1 alinhadas algures na encosta da Maxaquene
Pelos telhados pode ver-se que as barracas estavam dispostas em linha, nalguns casos com uma só e noutros com duas lado a lado. É no entanto difícil ver a orientação geográfica dessa linha pois faltam referências, começando por não saber que edifício grande branco estaria à esquerda da FOTO 2 pois não me parece ser nem a Igreja nem o Hospital e pode esta foto ser até anterior à construção deste. Por outro lado nessa altura não tinha sido ainda preparado o plano de urbanização em retícula do major António José Araújo que começou a ser aplicado nos anos 90 do século XIX, por isso não se pode esperar que estas barracas estivessem ao londo de uma rua que exista actualmente. Veremos mais sobre isto em baixo.
Alfredo Pereira de Lima (APL) na página 196 do livro "Pedras que já não falam" diz que a expedição das Obras Públicas trouxe 19 casas desmontáveis de madeira e ferro para servirem de quartel e que em Abril de 1877 elas foram assentes em fila na colina da Maxaquene, o que corresponde genéricamente ao que vimos em cima. Sobre o seu uso, APL diz que à medida que essas casas foram montadas serviram de repartição das Obras Públicas, de armazém de materiais, de alojamento de operários e de posto meteorológico. Mas por fim foram usadas provisóriamente como Hospital e suas dependências o que corresponde à legenda da FOTO 1 e penso assim que não há dúvidas que o texto de APL se refere às barracas que vemos nas FOTOS 1 e 2.  
Olhando para a posição da igreja na FOTO 1 pode dizer-se que o Hospital de Todos os Santos definitivo, grande edifício em alvenaria que vimos aqui, estava uns 400 - 500 metros para a direita e para o fundo da FOTO 1 (para sudoeste da barraca mais próxima à direita). APL dá a entender que durante certo tempo as barracas continuaram ligadas ao Hospital mas não é muito claro como e até quando isso aconteceu. Na FOTO 1 vê-se uns senhores europeus e africanos e para quem não discortino bem a actividade pelo que não imagino para que estavam a servir as barracas nesse tempo.
Se APL disse genéricamente que as barracas estiveram na colina da Maxaquene, o historiador luso-moçambicano Alexandre Lobato (AL) no livro Xilunguíne escreveu na legenda duma gravura que as representa que elas estavam por alturas da escola Correira da Silvaagora 16 de Junho zona de que falámos aquiVerifiquemos essa localização de AL com os dados que temos que são o mapa de 1903, a FOTO 1 de cima (A na montagem seguinte) e um pormenor da foto do artigo sobre a igreja também desta colecção em que se vê as barracas ao fundo (B na montagem): 


MONTAGEM (clique na imagem para aumentar)
Vermelho: orientação do eixo do corpo principal da igreja no mapa
Verde: posição da torre da igreja
Azul escuro: Hospital de Todos os Santos definitivo
Azul claro: Av. Castilho, actual Lenine
Castanho escuro: Av. Andrade Corvo, actual Min
Roxo: orientação das barracas em relação à torre da igreja e vice versa
Carmesim: minha estimativa da orientação da fila das barracas em relação ao corpo principal da igreja e vice-versa pelo que se vê nas FOTOS A e B
Mancha branca: minha estimativa de onde estariam as barracas 
a partir destes 3 elementos
Linhas creme à direita: frente do quarteirão da escola Correia da Silva, 
onde AL disse que tinham estado as barracas
Com a cor "roxo" marco a combinação estimada das vistas da barraca mais acima da FOTO 1 para a torre da igreja (a partir da imagem A) e da torre da igreja para as barracas (a partir da imagem B). A partir daí marco a "carmesim" uma estimativa da orientação da fila das barracas em relação ao corpo principal da igreja. A precisão dessas estimativas "roxo" e "carmesim" e no final a posição das barracas "branca" não será muita dado que na FOTO 1 (ou imagem A) por exemplo não se consegue ver bem a igreja e as duas fotos que uso também não mostram a fila completa das barracas e por isso por exemplo na IMAGEM B não sei se estou a ver ao fundo barracas do principio = mais a oeste, do meio ou do fim = mais a leste da fila. 
De qualquer modo parece-me que ficamos aqui com melhor ideia de onde estiveram as barracas, de facto por alturas da escola como AL disse mas com o núcleo um tanto afastadas dela embora as do extremo da fila em que estavam dispostas pudessem lá chegar. Essa fila seria mais ou menos paralela à igreja e elas começavam a norte do hospital e desciam suavemente a encosta mais ou menos na direcção de sudeste (note-se que se a sua linha estivesse orientada em norte - sul como está a Av. Castilho o declive seria maior mas parece nâo ser esse o caso). Olhando de novo para a FOTO 2 é mais ou menos isso que ela mostrava, que a linha "carmesim" não seria nem perpendicular nem paralela à margem norte do estuário.
A gravura que AL utilisou no seu livro "Xilunguíne" ao referir-se às barracas é muito semelhante à FOTO 1 e vem originalmente do livro "O Distrito de LM" de Augusto de Castilho (oficial de Marinha Português que foi Governador-Geral de Moçambique de 1885 a 1889 mas que antes penso que foi governador de distrito de LM) e que chamou às instalações "Hospital Barraca", talvez pejorativamente.


GRAVURA correspondente à FOTO 1
Legenda de AL (173): "a cidade vista do começo da Maxaquene, por alturas da actual escola Correia da Silva, vendo-se o hospital provisório ...e a igreja em construção"
AL diz ainda que estas barracas eram desmontáveis o que tal como a informação de que se tratava de hospital provisório se coaduna com a informação de APL. 
Quanto ao número de barracas, vejo na FOTO 1 seis em fila mais duas construções parece que maiores, na FOTO 2 conto umas dez pequenas e uma maior e na gravura vejo oito (das quais 7 em fila) e uma maior. Com isto estamos longe das 19 que APL disse que vieram de Portugal mas ...
Quanto a datas, as fotos da Colecção Campbell foram tiradas entre 1878/79 e até talvez 1887. No caso da FOTO 1 vê-se ao fundo a Igreja Paroquial que estava com andaimes tal como na já referida foto que tinhamos dito seria de entre Fevereiro de 1882 e Julho de 1883 (e como mostramos na Imagem B da MONTAGEM da igreja também se viam destas cabanas) e por isso as duas devem ter sido tiradas mais ou menos na mesma época. Por sua vez o livro de Augusto Castilho com a GRAVURA foi publicado em 1881 retratando por isso o mais tardar o que existia nesse ano, apontando assim também grosso modo para esse período. Podemos ter também em conta que o Hospital de Todos os Santos que substituiu estas barracas terá sido concluído entre 1879 e 1880 e por isso a partir de 1880 já se poderia dizer que elas eram do antigo hospital como estava na legenda original da FOTO 1.
Tentando agora ver para onde terão ido estas barracas depois de já não serem necessárias para o hospital (que foi ampliado cerca de 1890), noto que neste artigo aparecem cabines aparentemente do mesmo tipo das da FOTO 1 e que estiveram por onde é agora a Rua da Rádio logo abaixo da igreja (aqui no google maps). Coloco duas fotos delas ao centro da MONTAGEM 1 e onde à direita coloco barracas para operários que estiveram instaladas em 1890 também na direcção da actual Rua da Rádio mas abaixo do Hospital de Todos os Santos. Como estiveram todas relativamente perto e seria possível que tivessem existido simultâneamente durante algum tempo com as da FOTO 1 (e assim se encontrassem as que faltavam para se chegar ao total de 19) comparemos esses três grupos de barracas ou cabines: 


MONTAGEM 1
Três tipos em locais próximos na encosta da Maxaquene
Pode ver-se que as cabines de 1877 (à esquerda da montagem) têm alguma semelhança com as que estiveram mais tarde abaixo da igreja - indicada pela marca azul na traseira - e que iam até ao Hotel Clube (ao meio da montagem), mas essa das fotos do meio não tinham por exemplo a janela lateral das primeiras. Quanto às de 1890 (à direita), eram completamente diferentes dumas e doutras. Em termos de calendário as da esquerda foram instaladas primeiro e as outras depois e mais ou menos ao mesmo tempo, sendo as do meio as que permaneceram depois por mais tempo no seu local. 
Concluindo, sobre onde estiveram as cabines iniciais parece-me que a FOTO 2 as mostrará todas (mas não se consegue contar aí com precisão se eram 19) e que no mapa aproximadamente consigo representar a sua posição. Sobre o que lhes aconteceu depois de deixarem de ser enfermarias do Hospital, se foram desmanteladas ou se foram transferidas e para onde, ficamos ainda sem saber as respostas

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