Pe. Sacramento, Naylor, Rufino, jornal e lotaria: padre no Transvaal (1/10)

Vamos numa série de artigos falar sobre um quadro complexo na vida económica e social da cidade de Lourenço Marques (LM), actual Maputo entre a segunda e a terceira década do século XX. A grande maioria dos dados vêm de estudos académicos principalmente de brasileiros e relativamente recentes, dado que os autores luso-moçambicanos do pré independência mais activos não deixaram escritos sobre isso, ao que sei. Falarei nos artigos do padre Sacramento, de Rufus Naylor, de Santos Rufino, do jornal em que os dois portugueses estavam envolvidos e também da lotaria que sucessivamente pertenceu (duma forma ou de outra) também aos dois e/ou três. 
Para começar volto então a falar do padre José Vicente do Sacramento, personagem que deixou marca em Moçambique nessas primeiras décadas do século XX em diversos aspectos para lá do religioso. Deste não sei quase nada porque não foi coberto pelos referidos autores mas certamente haverá informação nos arquivos da igreja.

FOTO 1
Padre José Vicente do Sacramento c. de 1929

A foto de cima é retirada dum dos álbuns de Santos Rufino numa situação que detalharemos depois. Entre os dois devia haver anos de relacionamento pessoal, que como veremos terá começado no âmbito das letras e passou depois ao empresarial nomeadamente num jornal e na lotaria oficial, mas de exploração privada, de Moçambique. 
O académico brasileiro V. Zamparoni nos seus estudos sobre Moçambique no tempo português fala várias vezes do padre Sacramento, inicialmente devido à sua ligação à imprensa escrita começando pelo jornal "O Africano" fundado pelos irmãos João e José dos Santos Albasini de que falaremos mais nestes artigos. 
Mas Zamparoni parece ter-se interessado pelo personagem e por isso extravasa o que poderia ter sido uma abordagem mais restrita da vida do padre que veremos foi excepcional. Há outros académicos que têm investigado o primeiro jornalismo em Moçambique e que tal como Zamparoni devem também ter sido cativados por isso, e daí acaba por haver vários estudos sobre o padre. Mas como o foco não era sobre ele e/ou porque há falta de informação da época, comparando-se esses estudos aparecem contradições e falhas. Por isso sobre o conhecimento da vida do padre temos o caso típico do copo meio cheio / vazio e tento aqui mostrar o que existe de informação e nalguns casos comparar e sublinhar diferenças e/ou pontos que me parecem pouco credíveis, o que pode ser interessante para um leitor normal e dar pistas (sob a forma de hipóteses e/ou perguntas) para quem queira estudar o tema a sério. 
V. Zamparoni na dissertação "Entre Narros & Mulungos" desenvolve o tema da vida profissional laica / mundana do padre primeiro no Transvaal e em Moçambique depois: "O melhor exemplo de clérigo bem sucedido em empreendimentos mundanos é o do Padre José Vicente do Sacramento. O missionário atuava junto aos mineiros moçambicanos no Transvaal, em tese, em nome da obra evangelizadora, entretanto, mantinha as escolas sob a sua direção como se fossem empreendimentos privados, embora recebesse, para desenvolver tal tarefa £. 41 mensais do governo português, o mesmo salário recebido pelo Curador de Negócios Indígenas Portugueses, um alto posto da burocracia portuguesa que atuava na região de Johannesburg. O Intendente dos Negócios Indígenas e Emigração, afirmava ainda que as casas onde funcionavam as escolas eram cedidas gratuitamente pelas minas, que a mobília era comprada através de subscrição dos próprios alunos e que os professores indígenas eram também pagos pelos alunos ou pelo Governo. Em oito escolas, incluindo uma para brancos na qual o Padre era professor, mas que foi fechada devido à freqüência média ser de apenas 11 alunos por mês, as demais tiveram, em 1910, somadas, a média mensal de 173 alunos e, como o Padre cobrava de cada um a importância mensal de 3 shillings e pagava no máximo entre 9 e 12 shillings aos professores indígenas, o Curador, considerava-o “um mero aproveitador dos indígenas”. O Padre, por sua vez, reclamava com freqüência das dificuldades por que passava e, em 1914, abandonou as escolas sob o argumento de que o fez “por falta de qualquer subsídio que me permitisse a minha subsistência no Transvaal”. Na realidade, com o dinheiro acumulado no Transvaal, o Padre tornou-se proprietário de terras e do lucrativo monopólio da Loteria da Província, em Lourenço Marques, e acabou por adquirir, em novembro de 1918, o jornal O Africano ...".
Ainda V. Zamparoni no artigo  "A imprensa Negra" de 1998 escreve o seguinte:"José Vicente do Sacramento, durante anos diretor das "Escolas Portuguesas para Indígenas no Rand", foi aí representante e colaborador de "O Africano"". E penso que as frases seguintes dizem já respeito ao tempo em que o padre tinha já regressado a Moçambique: "...Tendo sido redator do jornal durante três meses em 1914, desliga-se por incompatibilidade com a orientação do diretor. O conflito abre-se a propósito do subsídio governamental que o padre queria interdito às escolas das missões protestantes,...". Isto significaria que no decorrer de 1914 o padre terá sido funcionário do jornal pelo menos a tempo parcial, passagem essa da sua vida que os outros autores não referem. Por seu lado V. Zamparoni não refere o tempo, cerca de 1912, em que o padre terá sido colaborador externo do jornal no Transvaal e que os outros autores destacam como veremos a seguir.
Vemos no estudo "Síntese histórica da imprensa moçambicana: Tentativa de interpretação" de Antonio HOHLFELD e James Machado dos SANTOS": "O sacerdote, que vivia praticamente na miséria, na região do Transvaal, tornou-se correspondente do jornal ("O Africano"). Recebia, como paga, exemplares que deveria vender, podendo ficar com o dinheiro. Contudo, acaba expulso da região, uma vez que o jornal denunciava constantemente a espoliação a que eram submetidos os trabalhadores moçambicanos nas empresas locais".  
Isadora Fonseca no livro de 2019 "A Imprensa e o Império na África Portuguesa (1842-1974)" diz também que o padre Sacramento como correspondente no Transvaal recebia exemplares que revendia aos mineiros e trabalhadores moçambicanos e popularizou aí o jornal, escrito em português e ronga mas Isadora não descreve a situação económico / financeira do padre nessa época. 
Sobre isso constatamos então aqui algumas versões e variantes e por isso deixo os meus "achismos" na falta de investigação mais profunda. 
-  sendo o padre funcionário público português por mais alto escalão em que estivesse e gerindo umas aulas a trabalhadores necessáriamente pobres por mais lucrativo que tal fosse, não me parece as duas coisas explicariam acumulação significativa de riqueza no Transvaal que Zamparoni diz que aconteceu;
- como o "O Africano" foi lançado no início de 1912 e em 1914 (ou pouco antes) o padre estava de volta a LM, a sua actividade da venda dos jornais terá durado no máximo três anos. Mesmo que o padre possa ter tido outras actividades no Transvaal (espectáculos e apostas desportivas que outros autores referem como veremos depois) elas parecem ter sido de muito curta duração. Como para mais esses dois negócios teriam sido em pequena escala não me parece que possibilitariam grande acumulação de capital. 
Ora se o padre realmente enriqueceu no Transvaal (o que para mim não é seguro, que ele enriqueceu é um facto mas para tal ter acontecido bastaria o período posterior em Moçambique) uma explicação poderia ser o seu envolvimento em qualquer forma de intermediação financeira com os salários dos emigrantes para o que ele estaria bem posicionado. É uma simples suposição minha mas que os investigadores encartados poderiam tentar seguir.
Outra diferença entre os autores é Zamparoni dizer que até parte de 1914 o padre ainda estava nas escolas na Africa do Sul enquanto que Isadora diz que ele regressou a Moçambique em 1912. 
As diferenças que aqui noto podem parecer menores mas como aparecem várias entre os diferentes autores que não se conseguem resolver e por isso se vão sobrepondo, olhando para a informação disponível na net não sei se consigo ou não saber o fundamental deste período da vida do padre Sacramento e que precede aquele em que ela se tornou mais decisiva.
No próximo artigo falarei mais desse período após o seu regresso do Transvaal a Moçambique..

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