Construção da 1a ponte-cais Gorjão em madeira frente à estação dos CF - ICCT 1 (1/6)

Estas imagens estão no site do ACTD/IICT  sob título "Caes Gorjão-Local: Moçambique" e até agora devem ter passado meio despercebidas mas são muito importantes porque mostram a construção da primeira ponte-cais Gorjão de Lourenço Marques, actual Maputo. Via-se que se estava no início do século XX dado o grande número de veleiros no estuário. 
Já tinhamos visto imagens de Cunha (de cerca de 1910/11) e de Santos Rufino (até 1929) em dois artigos abordando dois métodos de construção da ponte-cais: o dos blocos de betão que se iam encastrando e o da estrutura de betão armado em que estacaria travada com diagonais e travessas se ia construindo no local.
O que vamos ver aqui deve ser a primeira construção na posição do cais actual com estacas, como se pode ver pelos bate-estacas (maquinaria vertical utilizada nos dois casos) e cujo funcionamento tentei explicar nesse segundo artigo. Mas neste caso, pelo menos na maioria das fotos esta seria a primeira fase de construção com estacas em madeira australiana (espécie jarrah) e temos uma frente de trabalho com quatro bate-estacas em paralelo. 
Começamos por uma imagem geral, tirada dum local dentro do antigo estuário e que tinha sido aterrado em antecipação a estes trabalhos de forma a se poder lançá-los. Vê-se os carris fazendo uma curva de grande raio e que estão a ser usados por locomotivas para a construção da ponte-cais que acontece ao fundo. Aí os quatro bate estacas mostram o que se fazia e até onde tinha progredido a construção nesta altura.

FOTO A (ver a seta A no mapa de 1903)
Construção da ponte-cais Gorjão do porto de Lourenço Marques (5-n4694)
Do lado direito está o estuário, por isso aqui estaríamos no limite do aterro anterior do cais que seria o existente de 1886 até 1902 (a terra firme original estava longe) e o que estava à nossa frente era construção nova. 
Com a FOTO A vamos poder dizer o período no tempo, onde era e o que se construía aqui exactamente. Como o mapa de baixo é de 1903 e o que se via nestas imagens estava já lá marcado como estando construído (e neste mapa indicava-se a tracejado o que estava planeado) podiamos dizer que estas fotos são anteriores a 1903.
Para a questão do onde era, repare-se bem na FOTO 1 e no que marquei com preto, amarelo e vermelho neste mapa e faça-se a equivalência.

MAPA de 1903 - clique para aumentar
Carmesim: aprox. limite de aterro existente na zona da estação até 1902
Preto: molhe recente onde estavam os carris em curva e em primeiro plano da FOTO A
Amarelo: ver-se-á que a partir do molhe a preto se fez um pontão curto e maciço
antes de começar a ponte-cais com estacas
Vermelho: a ponte-cais que se vê a construir nestas fotos
A a G (normal e ampliação): setas indicando a vista das fotos, aproximadamente
Linha recta azul clara: a borda do estuário antes da intervenção humana.
Verde: praça dos Caminhos de Ferro que indica a zonas das fotos, 
embora a estação actual não existisse ao tempo delas. 
Rosa: Praça 7 de Março, actual 25 de Junho
Laranja: primeiras pontes e muro-cais frente à cidade mais a leste que depois desapareceram 
quando se aterrou da borda do estuário até à linha a tracejado 
que veio a ser a do cais actual
Roxo (à direita): extremo a sul do Cais Holandês 

e para a sua direita (poente = oeste) o Cais das Estâncias


A "carmesim" seria então o limite do aterro existente até ao início destas obras em 1902, o qual teria sido constituido com o muro de protecção da linha férrea em 1886/87. Para sul da estação tinha ficado aí um pouco de espaço mas mais para oeste = direita do esquema o paredão que tinha reforçado o muro de protecção da linha do seu lado do estuário seguia a poucos metros como se via nesta foto.  
Se esta localização estiver correcta, o que se conclui da FOTO A e do mapa é que a ponte-cais em construção está na posição da sua grande secção que fica na direcção da praça dos Caminhos de Ferro (ver FOTO 6 desta mensagem com os seus guindastes para a esquerda = sul da praça). 
E vê-se que a construção começou d
o poente = oeste (lado do Maé) para nascente = leste (lado da Praça 7 de Março) o que se explica por assim ter havido a possibilidade de ter a linha férrea para trazer materiais (pela direita), sendo muito mais difícil pela falta de espaço fazê-lo a partir da esquerda = leste. 
Com este mapa também se vê que o cais actual do lado da Praça 7 de Março (na direcção dos cais laranjas, para nascente = leste) onde estão os três armazéns especiais por exemplo, foi construído depois do cais em frente à estação de Caminhos de Ferro que é o que se vê a acontecer nas fotos deste artigo. 
Vamos então ver mais imagens desta construção:


FOTO B (ver a seta B no mapa de 1903)
Bate-estacas pilonando quatro estacas/pilares em paralelo.
Estamos de costas para nascente (ou para a baía)
 e a construção avança do oeste = poente para o lado de cá.(1-n4690)
Na FOTO B o estuário está do lado esquerdo e do lado oposto nestas fotos vai-se vendo mais ou menos água conforme a maré (mas ver explicação da FOTO D). 
Noto que as fotos têm números que aparecem inscritos ao contrário mas foram publicadas pelo IICT como as mostro aqui e que me parece que está correcto.


FOTO C (ver a seta C no mapa de 1903)
Vemos do muro de protecção da linha férrea inicial a ponte-cais em construção
 na maré cheia. Centro do estuário para o fundo (3-n4692)
A locomotiva vai movendo os bate-estacas para a esquerda à medida que se constrói cada linha de quatro pilares fazendo avançar a ponte-cais em direcção a nascente = leste. Do lado direito vê-se que entre a ponte-cais e o que tinha já sido aterrado havia um curto pontão maciço para fazer essa transição. Ao centro da foto, entre a terra e a água, vê-se tubos em alinhamento sobre flutuadores que penso serviriam para bombear água durante os trabalhos.

FOTO D (ver a seta D no mapa de 1903)
Espaço seco entre o muro de suporte da linha férrea inicial 
e a ponte-cais em construção para dentro do estuário (10-n4699)
Na FOTO D entre as estacas surgem diagonais e travessas (que veremos melhor na FOTO G em baixo), por isso ela é posterior por exemplo às FOTOS A, B e C. Não sei se estas fotos foram feitas num curto ou num longo espaço de tempo mas há diferenças substanciais que devem corresponder a largos meses. Por exemplo na FOTO D o espaço seco tanto pode corresponder a uma maré vazia como a ter-se já murado o estuário junto à ponte cais. Pelo menos em primeiro plano na FOTO D já não se via tubos que estavam espalhados nas outras fotos pelo que opto pela segunda hipótese. 
Esta zona veio depois a ser aterrada até à posição e a altura da ponte cais e só a partir daí os trabalhos de construção civil terão ficado concluídos. Noto assim que o navio acostado à nova ponte-cais não significava que ela estivesse já funcional, pois nem guindastes havia para além dos paus de carga do próprio navio mas é possível que se trate do Swazi que inaugurou o cais em 1903 o que claendariza estas fotos. 

FOTO E (ver a seta E no mapa de 1903)
Vista do estuário para a ponte-cais. Para a direita dela 
há um pouco de água e depois aterro (2-n4691)

Na FOTO E vê-se melhor que há sempre um navio a dar apoio na ponta da construção e veremos noutro artigo que se trata duma draga.

FOTO F (ver a seta F no mapa de 1903)
Foto tirada de cima de uma dos quatro bate-estacas.(6-n4695)
Aqui parece que pelo menos a plataforma do cais era em madeira o que se confirma pelo resto conhecido da história do primeiro cais acostável a grandes navios ter sido em madeira - ver aqui
Na FOTO F vê-se bem onde começou a ponte cais ligando ao aterro existente anteriormente por intermédio, penso eu, dum molhe onde estava a linha com os vagões que fazia curva para a direita.
Na FOTO F está maré alta por isso temos alguma água do lado da terra à direita. O que se vê para lá do fim da ponte-cais e depois duma praia (e se via já na FOTO E no horizonte para a esquerda) é o Cais Holandês logo seguido (mais para a sua direita) do cais da estâncias. Muito ao longe vê-se uma enseada para a direita correspondente à foz do rio Infulene. 
Na FOTO G a construção está bastante mais adiantada do que por exemplo na FOTO B e progride em direcção à zona da Praça 7 de Março, mas não chegaria lá porque para o fundo desta primeira ponte-cais ficou a primeira doca. Nesta foto tirada do estuário a entrada da baía para o estuário é para o fundo do lado direito.

FOTO G (ver seta G no mapa de 1903)
Ponte-cais Gorjão em construção no início do século XX (20).
A cidade estava para a esquerda da construção (4-n4693).
Na FOTO G em que a maré parecia ter baixado nota-se a grande altura da ponte-cais (e o que está soterrado não se vê) e que depois das estacas se colocavam travessas e diagonais, como tinhamos já referido sobre a FOTO D.
Se nos imaginarmos com tecnologia desses tempos com locomotivas, guindastes e barcos alimentados a carvão, só com os poucos recursos financeiros e humanos portugueses e vendo-se o comprimento já alcançado pela ponte-cais na FOTO G (para o fundo saliente devia ser o pontão do cais da alfândega mas ainda se estava longe de lá chegar) podemos tentar imaginar o esforço que foi necessário, e a ponte-cais é só uma parte (os talvez 120 metros de aterro feito da terra firme até ela é uma outra), para transformar a natureza deste lado do estuário e com os guindastes, os armazéns, as linhas de caminho de ferro, as estações, as oficinas, a central geradora, etc se criar aqui um porto internacional moderno. Isto reforça o que já tinha dito na mensagem sobre o porto na origem de tudo.
Ver mais algumas imagens e explicações destes trabalhos nesta mensagem.
Confirmar neste artigo que estas fotos devem ser de c. Agosto de 1903 pois por exemplo a FOTO D mostra o navio Swazi atracado o que sabemos aconteceu nessa data.
Estas obras foram iniciadas ao tempo do Governador-Geral Rafael Gorjão de que falaremos com mais detaque noutro artigo e por isso a ponte-cais, a primeira directamente acostável para grandes navios,  foi baptizada com o seu nome.

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