The Key To South Africa: Delagoa Bay - livro de Montague George Jessett (2/3)

Primeira versão do farol da Ponta Vermelha em 1899
Esboço por Montague George Jessett (MGJ)

Continuando o artigo anterior, na introdução ao seu livro parece-me que Montague George Jessett (MGJ) considerava garantida a posse pelo Reino Unido (RU) de Lourenço Marques(LM), actual Maputo, talvez porque Portugal tinha uma grande dívida financeira e seria forma de a liquidar. Os encómios de MGJ a LM são tantos que tive de certificar de que não falava da África do Sul completa. Óbviamente que valorizar-se em demasia um produto que se está interessado em adquirir não é boa táctica comercial, mas o livro era escrito em inglês e dirigido a esse público e presumo que MGJ esperasse que os portugueses não o lessem antes da proposta negociação sobre a aquisição ou aluguer de LM.  
Era assim que MGJ tentava convencer os seus concidadãos e justificava o livro: "After many years of scheming on the part of other powers, our own diplomacy is, we hope and believe, to be rewarded, and this, our latest possession, will shine as one of the brightest jewels in the Crown of the Empire. By every Imperialist (significava quem defendia o Império Britânico) this acquisition must be hailed with delight, and by it the hearts of all true Englishmen will be gladdened, for the best interests of our country and our colonies will be furthered, the integrity of our Empire assured, and a guarantee of peace obtained. It is therefore only natural that every Briton should seek to know something of our latest acquisition, and my endeavour has been to give a rough and general outline of the place and our position respecting it.
Na minha leitura e anotação rápida tentei principalmente obter dados sobre a cidade que MGJ visitou pelo menos em 1897, confirmando, rejeitando ou complementando aquilo que eu já sabia. O livro dá uma incomparável descrição da cidade nesses tempos, do que se fazia e planeava fazer e de como se vivia. Esta minha resenha não substituirá a sua leitura porque é muito limitada e parcial e talvez nem esteja totalmente correcta tendo em conta a forma acelerada como foi feita. 
Aqui não faço distinção entre o que MGJ diz directamente e o que ele cita. Por exemplo muitos dados vêm dum artigo sobre LM publicado no jornal Star de Joannesburgo antes de 1887 e que ocupa da pg 61 à 72 do pdf do livro. Esse artigo analizava as condições naturais da baia (com alguns baixios mas deixando canais navegáveis que se necessário podiam ser dragados) e do estuário e concluía que as condições para se construir um porto eram óptimas. Há um problema para a compreensão do livro pois o autor tanto fala de "harbour" referindo-se às condições naturais para se construir um porto como também chama "harbour" ao porto construido e em LM nessa altura havia o primeiro elemento mas faltava o segundo (falo das obras do porto separadamente aqui). 
Em minha opinião o livro também não é claro no encadear temporal das afirmações. Quer dizer pode ser normal um autor ter uma opinião ao princípio dum livro e mudar depois mas tem de tornar clara essa temporização, para além de dever justificar ao leitor essa mudança com o factor tempo para que o leitor o acompanhe. Acho que MGJ não o faz pelo menos claramente e o leitor perde-se fácilmente.. 
O livro fala dos dos faróis do Cockburn e da Ponta Vermelha (PV) do desenho de cima. Segundo MGJ o bairro da PV tinha três anos e recebia grandes elogios quanto às vistas, ao ar e às habitações (já entre 300 e 400, que me parece número exagerado) e seus jardins. Aí mencionava o hotel dum compatriota seu chamado Carpenter que é novidade, que havia um "bus" entre a Baixa e a PV (devia ser puxado a cavalo) e referia a estação telegráfica da E.T. e a sua grande concessão de terrenos na zona. 
MGJ mencionava que tinham sido construídas instalações sanitárias junto à ponte cais (aqui na FOTO 3 vê-se duas construções, uma grande à entrada da ponte e outra pequena a meio, uma delas talvez fosse isso). Falava de barcos adquiridos para o porto inclusive um rebocador vindo da Alemanha que seria o Teredo 
Termino este artigo com um ponto político-administrativo. Nas páginas 41/42 do livro MGJ qualificava os funcionários públicos portugueses com pelo menos cinco adjectivos negativos e esse era um dos pontos que MGJ não precisaria de "dourar" na sua apreciação de LM porque se a sua proposta fosse posta em práctica eles seriam substituídos por britânicos. Mas lendo rápido dá ideia que a sua opinião (ou a de quem ele cita) é um pouco oscilante pois esse negativismo é balanceado pelo tom esperançoso noutras páginas. Também sobre os portugueses em geral (sua personalidade, ética, capacidade de trabalho e de almoçar - pg 83) MGJ nem sempre é excessivamente negativo. Mas uma mensagem é constante em MGJ, a de que se a cidade passasse para o RU rápidamente tudo melhoraria muito (pg 86 - pag 135) e também seria óptimo para os cidadãos do RU. Exemplo na página 151: "Once England obtains a footing in the Bay this deplorable state of affairs will disappear as if by magic, and a wonderful era of prosperity will be inaugurated". Para uma alma minimamente cínica e endurecida do século XXI (21) isto parecerá demasiadamente angelical mas ...
Continuará a descrição da cidade e sua infraestura em 1898 no terceiro artigo desta série.

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