Linha de defesa de LM no século XIX: mais da Porta da Linha (2/6)

Continuamos o tema das portas da cidade focando-nos na Porta da Linha, a mais a oeste das duas que a linha de defesa de Lourenço Marques (LM), actual Maputo tinha. Era também chamada Porta da Cidade presumo que por ser a mais importante,
Temos duas fotos com ela que eram até agora pouco conhecidas na net e são aqui reproduzidas de originais da Universidade de KwaZulu-Natal onde fazem parte da Colecção Campbell e respeitando os requisitos respeitantes à sua publicação em linha. Essa colecção será de entre 1879 e 1887 mas vimos já pela igreja paroquial em construção que pelo menos uma delas devia ser de entre Fevereiro de 1882 e Julho de 1883. Como esta porta terá sido desmantelada em 1883, suponho que as duas fotos que aqui mostraremos tenham sido tiradas entre 1882 e 1883 como a referida foto da igreja paroquial.  
Na primeira foto aparece a porta vista a partir do caminho que atravessava o antigo pântano vindo da encosta (chamado Alto das Machambas) e por aí dava acesso à povoação que geográficamente lhe ficava para sul. 

FOTO 1
Porta da Linha vendo-se depois a Travessa da Linha 
na continuação do caminho que atravessava o pântano
A imagem seguinte da Porta da Linha é um pormenor retirado duma foto panorâmica do burgo dando uma perspectiva inédita da linha de defesa ainda completa, pois como vimos na FOTO 2 do artigo anterior a foto de Fowler de cerca de 1886 já não mostrava as colunas desta porta. A linha foi completamente desmantelada em 1888 mas podemos dizer em retrospectiva que essa decisão foi tomada um tanto à ligeira dado que houve depois pelo menos um ataque perigoso à cidade.  

FOTO 2
Porta da Linha centrada na direcção do tronco da palmeira, duas colunas 
abrindo um intervalo no muro da linha de defesa a noroeste do burgo
A FOTO 1 do artigo anterior de origem holandesa no geral é semelhante à FOTO 1 deste e tinha um carro de bois a passar pela Porta da Linha em vez do senhor que parece africano vestido à europeia desta. Estas fotos serão certamente de para o fim da vida da porta e no que respeita às redondezas podemos notar o sequinte:


MONTAGEM 1
Fotos da porta da linha de Lourenço Marques até 1888
A foto do artigo anterior (em cima nesta montagem) é a mais recente pois nela aparece um novo edifício entre a linha de defesa e o prédio pré-existente. Nele aparece também um candeeiro desse mais outro para o fundo da Travessa da Porta da Linha e que estaria perto do cruzamento desta com a Rua Consiglieri Pedroso..
Podemos ver um desenho desta porta tal como foi executada em 1867 e é reproduzido do livro Xilunguíne de Alexandre Lobato:  

IMAGEM 1
Porta da linha em 1867 vista do lado da povoação
Noto que Alexandre Lobato diz que nas colunas estava escrito à romana o ano de 1867 (o da sua construção) mas no desenho vê-se na coluna da esquerda o "67" em símbolos normais por isso ... (nas fotos não se consegue ver esse detalhe). 
Podemos estimar a largura da porta ao nível do solo na FOTO 1 estimando 1.5 m para a altura do senhor, pelo que a porta teria pelo menos 2 m de largura. Alfredo Pereira de Lima no livro Pedras não é claro sobre se ela foi ou não alargada durante a sua existência mas olhando para os meus "cálculos" isso pode ter acontecido. Se sim, não sabemos se as colunas iniciais se mantiveram ou se foram muito modificadas embora pareça que no geral as das fotos que seriam posteriores à eventual modificação se assemelham às do desenho
Como vimos no artigo anterior, a sobreposição de plantas mostra que a Porta da Linha ficava onde está a actual 25 de Setembro, entre o edifício do actual Centro Cultural Brasileiro a norte e o Hotel Turismo a sul. 
Na posição deste último esteve desde perto do início do século XX (20) o prédio dos Tabacos George / Casa Bayly (ver aqui também) que podemos recordar em foto de Harrison Forman reproduzida do site da Universidade de Wisconsin Milwaukee (UW-M) onde fazem parte do arquivo da American Geographical Society Library. 


FOTO 3

A esquina do prédio em frente estava onde na foto holandesa
estava a casa de fachada lateral branca, aproximadamente
Olhando para a direcção do reclame da Kodak e resto das fachadas nessa direcção e que corresponde ao lado a leste da Travessa da Porta da Linha, tendo em conta a sua posição nas fotos da MONTAGEM 1 e onde tinha sido o limite a norte da "ilha", estimo que o centro da Porta da Linha tivesse estado uns 7 a 8 metros para a direita = oeste do ponto onde na FOTO 3 estavam a "mãe e filha".
Noto que à direita da FOTO 3 e para o fundo vê-se a antiga Casa Eduardo Silva na Rua Consiglieri Pedroso, a rua a sul da qual estava a casa que se via na transversal ao fundo da Travessa da Porta da Linha nas duas fotos na MONTAGEM 1.
A FOTO 4 que se segue mostra como passou a ser o local da FOTO 3 e da antiga Porta da Linha a partir de 1970 com o edifício do Hotel Turismo que ainda aí permanece (foto dele quase novo do Arquivo Histórico de Moçambique divulgada pelo site delagoa bay world). A substituição do prédio anterior não acarretou outras transformações na zona pois desde cerca de 1940 e como dissemos neste artigo se tinha prolongado a Av. Manuel de Arriaga, actual Marx para sul da Av. da República, actual 25 de Setembro juntando a Travessa da Porta da Linha ao espaço que resultou da demolição de construções que existiam para oeste dela,

FOTO 4
Av. da República, actual 25 de Setembro passando na transversal
 ocupa o espaço onde esteve a linha de defesa e parte do pântano
Relativamente à Porta da Linha que existiu até 1883 podemos dizer que aproximadamente terá estado uns metros para a esquerda e para o fundo do senhor que se vê de costas na direcção da esquina do Hotel Turismo e onde está o reclame da DETA. Lembro tabém que depois da demolição da linha de defesa e aterro do pântado esteve por esra zona e durante algum tempo o primeiro mercado da cidade.
No próximo artigo mostraremos principalmente duas gravuras da Porta da Linha.
Os artigos da série completa sobre a linha de defesa e seus fortes aparecem aqui.

Informação de Alfredo Pereira da Lima (APL) 
(e comentários do HoM sobre as suas zonas obscruras)
1. Diz APL no livro Pedras, página 86 sobre a Porta da Linha que "LM esteve murada desde 1867, data em que se concluiu a linha de defesa, até 1888, ano em que abriram o flanco da porta, para franquear mais largo acesso às carretas "boers" do Transvaal".  
Mas na página 173 do mesmo livro, APL falando sobre a linha de defesa diz que "E como acabou esta linha de defesa? Ela foi condenada pela natural expansâo da cidade. Em 1883, as Obras Publicas pediram autorização para abrir mais o flanco da Porta da Linha (as Portas da Cidade) para facilitar os acessos às carretas de transportes entre Lourenço Marques e Transvaal". 
Ora não é muito provável que tenha demorado desde 1883 até 1888 para ter sido autorizado / fazer-se algo aparentemente tão banal e necessário por isso daqui fica-se sem saber quando a porta foi de certa forma alterada. 
"Abrir o flanco" devia querer dizer retirar muro existente ao lado da porta mas mantendo-a.  Ora que vimos nas fotos foi que ou havia porta cerca de 1882 ou não havia cerca de 1886. O que APL quis dizer com "abrir o flanco" e "abrir o mais o flanco"?
2. APL diz que em 1886 havia quatro portas de ferro que cingiam a povoação e que a principal era a da Linha. Não sei como APL contou as portas, se for duas por cada entrada estaria certo. 
3. APL refere para a porta mais ou menos as medidas escritas na IMAGEM 1 para a largura interior (de 1.3 metros entre a base das duas colunas - que eram caiadas de branco - em vez de 1.5 m no desenho) e para a altura (de 5 metros em vez de 5.2 m no desenho). No entanto APL diz que a largura das colunas era de 20 centímetros, medida essa que não está no desenho, em que me parece-me que as colunas teriam mais do dobro desses 20 cm. 
Mas há grande diferença do desenho para as fotos. Nestas as colunas teriam talvez uns 80 cm de largura e presumo profundidade equivalente (a que é que APL chamava largura para os seus 20 cm?) pelo que não se sabe bem onde APL foi buscar essa informação. Como disse em cima a largura da porta nas fotos parece também muito maior do que o que APL diz e até da que estava no desenho. Porquê estas diferenças? Terão as portas sido alargadas / modificadas entre 1867 e 1883? 
4. Se as colunas foram modificadas foram-no pouco no que respeita ao desenho comparando as fotos (que as mostrariam depois da eventual modificação) com a IMAGEM 1, notando no entanto que se estão a comparar lados diferentes mas assumo que elas eram simétricas do lado da povoação e do pântano. Todavia teria havido alteração na largura (noto também que na GRAVURA 2 do artigo anterior elas pareciam mais estreitas do que nas fotos, seria essa gravura fidedigna ou não?). 
5. Sobre o desenho, APL acrescenta que na coluna da direita para quem saía da povoação tinham sido esculpidas as armas reais encimando os números 1867, ano em que o baluarte de Santo António terá ficado concluído. Nas fotos não se consegue ver onde estão os números mas na IMAGEM 1 - do lado da porta virado para a povoação - os números  (o 63 â esquerda é evidente) estão por cima das armas junto ao capitel das colunas, o que é o oposto ao que APL disse. 

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