Emily F. da Piedade: personalidades e acontecimentos em LM na 2a metade do século XIX (1/3)

Referi em vários artigos anteriores Emily (ou Emilie) esposa e depois viúva de Manuel Fernandes da Piedade que era conhecido na cidade por Manuel da Praia, a pioneira inglesa que viveu em Lourenço Marques (LM), actual Maputo em 1866 e 1867 e depois entre 1872 e 1878. É o caso deste artigo principalmente sobre a sua vida perto do clã dos Maxaquene / Mpfumo e deste sobre a sua vida posterior em Barberton.
Emily / Emilie - Fernandez / Fernandes
 depois Lee em Barberton, RSA
Esta foto que foi tirada pelo estúdio de Thomas Lee com quem Emily onde casou em segundas núpcias é cortesia do Museu de Barberton (município Umjndi) e do FB Barberton Bliss e podemos nela ver Emily certamente em fase adiantada da vida
As informações que temos de Emily em LM vêm do depoimento que ela escreveu / fez em 1907 no jornal "LM Guardian".
Envelope desse jornal por volta de 1910

Nesse depoimento ela referiu muitos nomes de residentes na cidade e factos de tempos antigos. Naturalmente estariam especialmente relacionados com os negócios do seu primeiro marido e focavam-se por isso nos transportes por barco, o que veremos melhor em artigos seguintes, no contexto de ela ser inglesa e de haver tão poucos habitantes que por exemplo o governador de distrito (seria agora de província) seria fácilmente acessível. 
Sumarizando esse depoimento temos o seguinte sobre as personalidades mencionadas:
- Pott, cônsul sul-africano, já conhecido;
- George Haydon Bennet, primeiro cônsul inglês para LM cerca de 1873 pois antes só havia consulado na Ilha de Moçambique;
- Thomas Lamont Thompson, segundo cônsul inglês nomeado por volta de 1874;
- Firmas Regis Ainé (filho mais velho?) francesa e Dunlop & Mess holandesa, abriram sucursais por volta de 1874;
- Governador de distrito, Narciso Mendes Falcato entre 1873 e 74;
- Crompton e J.P. Ablett do Natal que montaram um estabelecimento comercial onde foi depois construído o Bank of Africa;
- Percy Hope que importou camelos mas não deu resultado como meio de transporte. Crompton e Ablett importaram burros que também não deram resultado (falaremos mais disso);
- Augusto de Castilho, tenente da Armada, era governador de distrito entre 1875 e 1879. Foi o primeiro presidente da câmara municipal de LM, em 1885 foi Governador-Geral de Moçambique e em 1908 foi ministro português da Marinha e Ultramar em 1908 (wikipedia. deve haver confusão entre governador de distrito e da colónia, ver livro de Eduardo de Noronha no site malhanga.com);
Augusto de Castilho, uns 30 anos depois de Emily o ter conhecido

- Empreiteiro Thomas Poyton de Durban que começou a construir a alfândega antiga mas parou porque muitos dos seus operários europeus adoeceram ou morreram;
- Meekle que era faroleiro usando um navio, o Pelham, que o governo português tinha comprado. Emily e o marido quase tinham naufragado nele em Durban em Dezembro de 1874, altura em que a barca Transvaal e outros navios se afundaram aí (esse naufrágio está mencionado aqui, a entrada na barra de Durban era muito difícil, o que foi uma vantagem competitiva para o porto de LM). Veremos ainda quem tinha sido proprietário e em que tinha sido usado esse navio Pelham;
No seu testemunho para além dos acontecimentos já referidos das lutas entre os Swazi e Matolas e entre estes e os Mpfumos entre 1886 e 1867, outros marcantes para Emily foram:
- cerca de 1874 o casal Emily e Manuel abriu o Hotel Real / Royal Hotel, perto de onde se fez depois o Carlton, principalmente para hospedar viajantes do Natal / Durban e mineiros do primeiro campo aurífero do Transvaal aberto em 1873 em Mac-Mac (deriva de haver lá muitos escoceses, perto de Sabie e Pilgrims Rest), viajantes sul africanos e imigrantes;
- por essa altura mineiros estrangeiros embedaram-se e andaram pelas ruas de LM com fardas de soldado e com pás e picaretas roubados das lojas e ameaçando a população. Augusto de Castilho que tinha estado na Marinha Britânica deixou que a bebedeira lhes passasse e depois disse que não toleraria mais esse comportamento, eles pediram desculpa e o assunto resolveu-se. Diz Emily que esse acontecimento deu origem à lenda de que os ingleses tinham tomado conta de LM;
- cerca de 1875 chegou muito material para a linha de caminho de ferro, que deve ter sido da primeira concessão que foi projecto falhado;
- em 1877 foi nomeado novo governador, um Major Simões que com uns poucos residentes  e soldados locais contrariou uma revolta nativa; 
- em 1878 houve a revolta de Sekukuni no Transvaal (wikipedia fala de guerrra contra ingleses e seus aliados suazis em 1879) que afectou os transportes entre LM e o Transvaal. Os negócios em LM foram muito afectados e muitos comerciantes e habitantes deixaram a cidade, ela (e o marido?) também;
- em LM muita gente morria de febres mas outros foi do efeito das bebidas, aguardente de cana e outras.
Resumo do depoimento de Emily continua no próximo artigo falando-se sobre o comércio marítimo.

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