Hotel Cardoso - primeiro edifício e anexos em 1919 em fotos de Shantz e mapa (2/7)

Vimos no artigo anterior o primeiro edifício do Hotel Cardoso na Ponta Vermelha e notava-se aí que a vegetação no jardim em frente do edifício foi evoluindo. Temos agora fotos provenientes do site da University of Arizona - colecção shantz que mostram o recinto do hotel e a sua vegetação mas infelizmente não mostram claramente esse edifício principal. As fotos foram tiradas pelo conceituado botânico norte americano Homer L. Shantz que passou por Lourenço Marques, actual Maputo em Outubro de 1919 e que lá se hospedou como dissemos aquiShantz aproveitou o hotel por exemplo para fotografar as vegetação da barreira e como vimos aqui os trabalhos do aterro (ver ao fundo deste artigo a FOTO 4 como exemplo dessas fotos). Shantz explica as fotos nas notas de viagem (travel notes 393-413 e 414_426) da essência das quais produzo as legendas usadas em baixo.
É um tanto difícil localizá-las mas seguramente a FOTO 1 mostra o recinto do hotel ao longo da Av. Bartolomeu Dias, actual M. de Mueda, a qual passa do lado de fora da vedação à esquerda. Isso parece confirmar-se porque do lado de fora vê-se um poste (o mais escuro, mais à esquerda) que deve ser da linha de distribuição de electricidade que se via aqui nessa posição relativamente ao terreno do hotel. Parece-me também que ao fundo da FOTO 1 ao centro esquerda e de cor mais clara está um dos postes da linha de alimentação do carro eléctrico. Recordo ter aqui falado dessa infraestrutura nesta zona e ter-se observado nas fotos que ele devia circular do lado da avenida oposto ao do hotel. Indico à esquerda da foto um cabo aéreo com um pequeno traço azul que presumo lhe pertencesse mas ....
Pode também dizer-se que o edifício que se vê â direita ao fundo da FOTO 1 não é o principal do Hotel pois este tinha dois pisos, o que não é o caso deste. Mais adiante tentaremos estimar melhor o que por aqui existia e a posição em que estas fotos terão sido tiradas. 

FOTO 1
Página 413 das notas de viagem de Shantz: 
"árvores "Ficus" (figos) que lançavam um sombra densa"

Segue-se outra foto que não deixa ver grande coisa do edifício ao fundo pois o autor estava mais interessado na vegetação. Como se vê árvores à esquerda presumo que seja desse lado a "avenida dos Figos" e a Av. Bartolomeu Dias da FOTO 1, quer dizer nesta FOTO 2 estaríamos mais perto da barreira do que na foto anterior. Por isso esta FOTO 2 teria sido tirada básicamente na mesma direcção da FOTO 1 mas tenho dúvidas.

FOTO 2
Página 411 das notas de viagem de Shantz:
 "vista geral do terreno com "Afzelia quanensis" que providenciavam boa sombra"

Quanto às plantas, encontro uma "afzelia quanzensis" como existindo na África do Sul e com os dados seguintes: Family: Fabaceae e Common names: pod mahogany, lucky bean tree e aqui também, mas não faço ideia se será mesmo a planta que Shantz viu.
A FOTO 3 tal como as outras é de Outubro de 1919 mas Shantz não diz expressamente que seja do Hotel. Tudo leva a crer no entanto que foi tirada da sua traseira na crista da barreira da Maxaquene perto da Ponta Vermelha e olhando-se para sul - sudeste. 

FOTO 3
Página 411 das notas de viagem de Shantz:
 "Temple tree, uma arvore ornamental"

Shantz nas notas de viagem diz que a "temple tree" tinha flores branco-amarelas, com perfume intenso e que algumas estava caídas no chão. Na wikipedia diz que é uma Plumeria mais conhecida por "frangipani" e a flor é esta pelo que juntando a imagem ao cheiro penso ser bem conhecida. Nesta foto tinha-se vista para o estuário do Espírito Santo, actual de Maputo com a sua margem sul da (k) Catembe / Ponta Mahone ao fundo. 
Podemos ver aqui uma das fotos que penso que Shantz tirou da traseira do hotel ou de local próximo olhando para a Baixa e captando dessa forma os trabalhos do aterro já bastante adiantados:

FOTO 4
Trabalhos do aterro da Maxaquene em curso em 1919, 
ainda com uma faixa alagada do lado do estuário

No sopé da barreira vê-se o início dum caminho a pé que aparecia no mapa de 1925/26 deste artigo marcado com a marca amarela. Esse caminho que saía da estrada marginal dessa altura passava abaixo do Hotel Cardoso e chegava ao cimo da barreira já perto do Governo Geral. 
Revemos a seguir a frente do Hotel Cardoso e pelo seu aspecto exterior e estamos em crer pelo que seria o seu interior parecia não se justificar que se tratasse talvez do melhor hotel da cidade de Lourenço Marques antes da construção do Hotel Polana em 1922. No entanto comparando com por exemplo os hotéis Central e o Carlton na Baixa e o Hotel Clube na encosta da Maxaquene, este Hotel Cardoso tinha a vantagem de ficar na zona alta, mais fresca e salubre da cidade, com muito boa vista para a baía e estuário, perto do Governo-Geral e dos seus serviços e como vimos agora tinha o atractivo dum espaçoso e cuidado parque.


FOTO 5
Fachada principal do Hotel Cardoso com o jardim em frente.

Olhemos então para uma planta de 1897 (Planta Cadastral do Arquivo Histórico Ultramarino) assumindo que mostrava já o recinto do Hotel Cardoso que sabemos existia já em 1905/06 e onde em 1919 Shantz fez as FOTOS 1 a 3 vistas em cima. A certeza das estimativas das posições das fotos anteriores que aí marco, especialmente para a FOTO 2 não é muita mas tenta-se ...

Planta do recinto do Hotel em 1897 com localizações de fotos e edifícios estimadas
Azul: Av. Bartolomeu Dias, antes Mariano Machado e actual M. de Mueda
Rosa: Rua Infante D. Henrique, actual Nachinwea
Amarelo: posição e direcção estimada da FOTO 1, apontado a sudeste
Verde: posição e direcção estimada da FOTO 2, mas com muitas dúvidas
Roxo: posição e direcção estimadas da FOTO 3
Vermelho: fachada frontal do edifício principal do hotel da FOTO 5
com o espaço ajardinado em frente daí até à avenida
Mancha castanha: barreira a chegar à Ponta Vermelha

Em relação à FOTO 1 nota-se à sua direita uma esquina (de cor mais escura) que corresponderá então à do telhado edifício ao lado da seta amarela. Se estas estimativas estiverem correctas, o edifício do Hotel Cardoso inicial ("vermelho") estava quase encostado ao lado direito = a noroeste do seu terreno fotografado por Shantz e que seguia daí para sudeste. Os outros edifícios que estão na planta e alguns estarão nas FOTOS 1 e 2 seriam então construções auxiliares do hotel. O novo edifício para o hotel que foi construido em 1938 terá então sido implantado a partir de onde tinha estado o hotel inicial e descendo a partir daí ao longo da Av. Bartolomeu Dias para sudeste ocupando o terreno onde tinham estado os outros dois edifícios e a parte do parque mais próxima da rua, quer dizer ocupando pelo menos a parte que se via ao centro-direita da FOTO 1 e à esquerda da FOTO 2. 
Noto que a sudeste do hotel (frente ao entroncamento entre as duas ruas e que está ao centro daqui no Google Maps) houve um edifício que cerca de 1926 foi estação de incêndio, a qual que terá sido desactivada depois. Não sei se o terreno actual do hotel corresponde exactamente ao da planta de 1897 ou se se lhe terá sido acrescentado o terreno dessa estação de incêndio (ver aqui essa zona, com a rua e o hotel e a estação de incêndio específicamente indicada no MAPA D.3 e FOTO E).
No próximo artigo veremos então o novo edifício do hotel que foi construido em 1938.

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