Os quadros da expedição das Obras Públicas de 1877

"Desperados" (devia ser mais jovem para se enquadrar melhor)
ou Homens da Resgisconta (aquela máquina!)?

Estas imagens servem para tentar ilustrar a forma como o Eng. Lopes Galvão (LG) nos anos 40 e Alfredo Pereira de Lima (APL) nos anos 60 descreveram os engenheiros da Expedição das Obras Públicas que ia da Metrópole (parte de Portugal na Europa) chegaram a Moçambique e desembarcaram em Lourenço Marques, actual Maputo a 7 de março de 1877.
As palavras principais que APL utilisou sobre eles foram "plêiade brilhante de rapazes inteligentes, saídos da escola, entusiásticos e vigorosos" o que na minha mente (distorcida ou não) quereria dizer a nata de jovens engenheiros portugueses desse momento, ou seja seriam uns "Homens da Regisconta" uns 100 anos antes dos reais. 
Por seu lado LG disse: "no recrutamento dos engenheiros não houve possibilidade de escolha ... Engenheiros distintos, de reputação confirmada, não queriam sair do continente" o que significa que os que aceitaram ir apesar de salário pouco atraente, da distância, do risco para a saúde, etc eram uma espécie de "desesperados mas patriotas" (noto que LG não se foca tanto na questão da jovem idade dos membros como APL fez). 
Daqui se vê que a palavra "plêiade" usada por APL, para além de ser um tanto redundante (segundo o dicionário quer dizer "grupo ou reunião de homens célebres pelo talento") é também enganosa porque até esse momento o talento deles não tinha sido despoletado ou reconhecido. APL, conhecido autor luso-moçambicano, normalmente glorificou tudo do passado de LM e por isso não fez excepção neste caso. 
O Eng. LG, um metropolitano que fez carreira distinta em Moçambique como profissional de engenharia civil nas duas primeiras décadas do século XX e que por isso também sabia do que falava, no seu livro sobre Engenharia Portuguesa em África em muitos casos também optou pela louvação dos envolvidos. Mas como vimos, neste caso e em relação aos CVs pré-expedição dos membros da expedição, LG foi muito "cauteloso". 
APL e LG estão de acordo em que a expedição fez muito bom trabalho, o que quer dizer que os seus membros foram profissionalmente capazes e pode-se dizer que terão excedido as expectativas. Os dois estão também de acordo sobre a qualidade do chefe da expedição, o Eng. Joaquim José Machado, que segundo LG apesar de jovem tinha bom nome na academia e foi directamente seleccionado pelo ministro Andrade Corvo e pelo que percebo como primeira escolha. Machado acabou por ser um lider de gabarito (para este trabalho e no resto da vida profissional) e foi por isso factor fundamental para a boa condução das equipas de 1877 em diante (e viu-se depois que embora sendo funcionário colonial foi muito dedicado a Moçambique).
Mas as moedas têm duas faces e o facto de como LG diz de que engenheiros académicamente, profissionalmente ou até socialmente mais destacados na Metrópole tivessem evitado ir para Moçambique, pode até ser a explicação para o sucesso da expedição e depois para o impacto que alguns dos seus profissionais vieram a ter no território porque optaram por aí ficar mais tempo. Os membros da expedição, sendo bem dirigidos, podem-se ter sentido "libertos das amarras" profissionais e sociais que os prendiam antes e terem ("entusiásticamente" como diz APL) agarrado a oportunidade de fazer obra em Moçambique, o que poderia não ter acontecido se fossem profissionais já com mais exigências e "vícios".
Das obras de Alfredo Pereira de Lima reproduzo aqui a lista dos quadros da expedição (sublinho os que se destacaram depois em Lourenço Marques, outros terão sido colocados noutras cidades que não acompanhei): 
Engenheiro director, major Joaquim José Machado (ver NB 1);
três engenheiros, chefes de secção: capitães de engenheiros Afonso de Morais Sarmento, João Antonio Ferreira Maia e tenente de artilharia, Alfredo Augusto Barros Viana; 
7 condutores (ver NB2) de 1ª classe: tenentes Caldas Xavier, João Carlos Ribeiro, João Maria Pereira, Augusto César Simões, José Eduardo Lopes e os civis Jeremias Willhouse e Francisco Correia Leotte
3 condutores de 2ª classe: tenente Joaquim José Lapa (mais tarde presidente da Câmara de LM, rua com o seu nome), António Sebastião do Nascimento Costa e o civil D. João José de Melo; 
6 condutores auxiliares: alferes António Nunes Bouças, Francisco Augusto Ferreira, João Brito Vaz Coelho, Adolfo Ascanio de Morais Palha, José Alfredo da Cunha Barros, Eduardo Alcântara Ferreira..
(Fizeram ainda parte muitos) desenhadores, apontadores e pessoal operário. Dos operários ... Augusto Baptista de Carvalho foi dos que mais se distinguiu. Como curiosidade pode ver-se aqui o requerimento do seu passaporte para ir para LM em 1890. Nessa latura já estava registado como comerciante, presumo que quando tivesse saído da expedição tivesse regressado a Lisboa e decidido depois voltar a a LM.
Eis as partes principais dos textos dos dois autores que tentei resumir em cima:
a. citações do Eng. Lopes Galvão (LG) no livro "A Engenharia Portuguesa"
páginas 36 e 37 (comum à expedições simultâneas a Angola e Moçambique): 
"Grandes dificuldades houve no recrutamento de pessoal para constituir as duas expedições a Angola e a Moçambique. Mais do que os ainda diminutos vencimentos oferecidos aos convidados, impedia o seu recrutamento o juízo então corrente acerca do clima africano que ceifava os organismos humanos ainda que os mais robustos. Quem partia para África ia convencido de que não voltava. Por isso só uma extrema necessidade levava os menos aptos a aceitar os convites. Realmente, muitos deles por lá ficavam, já porque o clima, ao tempo, ela bem traiçoeiro, zombando das medidas profiláticas e da acção medicamentosa; já porque os que iam nem sempre se defendiam dêle como se fazia mister. 
Os que lá não ficavam, regressavam muitos deles, pálidos, macilentos, maldizendo a hora em que haviam partido para tão longínquas paragens. E assim se mantinha, quando não se avolumava, o horror pelo continente africano. As comunicações com êle eram raras e a escassez de notícias de cá e de lá aumentava a inquietação dos espíritos. Nem os que ficavam, nem os que partiam, se sentiam bem com a ausência forçada. Resultava daí que por mais seduções que se inventassem nenhum recrutamento de jeito se podia conseguir.
Esse espírito de relutância pela vida do Ultramar ficou bem evidenciado nesta ocasião. Meses e meses se gastaram para se conseguir o recrutamento do pessoal. Nem o prestígio dos chefes escolhidos, nem os ordenados que se lhes dava e as vantagens que se ofereciam eram bastantes para demover os que eram convidados. A relutância em partir ia dos engenheiros aos operários. Pode bem afirmar-se que foi mais por patriotismo do que por interêsse que muitos anuíram a fazer parte das expedições. 

página 56 (específicamente sobre Moçambique):
"Lê-se num dos relatórios presentes ao ministro que no recrutamento dos engenheiros não houve possibilidade de escolha. Aqueles que partiram sabiam bem que sómente foram aceites na falta de outros que não quiseram ir. Engenheiros distintos, de reputação confirmada, não queriam sair do continente. O pais estava entrado numa fase de grande actividade e progresso, rnaterial, e todos os técnicos encontravam nele fácil e atraente colocação." 

b. citações de Alfredo Pereira de Lima em várias obras - FB e FB Obras de APL 
"...  plêiade brilhante de rapazes inteligentes, saídos da escola, entusiásticos e vigorosos, deram um impulso moral enorme ao presídio, onde o nível intelectual não acusava grandes elevações.”
"... técnicos e operários competentes e dedicadíssimos ....
“….foram esses homens, técnicos e operários – arrojados e inteligentes – que a Metrópole nos enviou e aqui fizeram escola" 

NB 1: Biografia de Machado (livraria Castro e Silva, album de MRP)
 General Joaquim José Machado, (Lagos 1847 - Lisboa 1925) engenheiro militar, especializado em caminhos de ferro e administrador colonial, que desempenhou, entre muitos outros, os cargos de Governador de Moçambique, por três vezes e Governador do Estado da Índia, durante a Monarquia e a República.
Formado em engenharia, assentou praça em 21-10-1869, foi promovido a 2º tenente, em 9-12-1873, a tenente em 1875, em 01-08-1876 foi promovido a Capitão.
Logo a seguir foi nomeado director das Obras Públicas de Moçambique, pelo Ministro da Marinha e do Ultramar, Andrade Corvo, sendo promovido a Major em 13-09-1876.  para exercer o cargo de chefe da expedição de Obras Públicas a Moçambique,
Responsável pelo planeamento do traçado do Caminho de Ferro de Lourenço Marques a Pretória. (1876 - 1885)
Director do Caminhio de Ferro de Lourenço Marques.
Inspector das Obras Públicas no Ultramar. Dirigiu a fiscalização do Caminho de Ferro de Ambaca, 1886.
Director das Obras Públicas de Angola.
Estudo da construção do Caminho de Ferro de Moçamedes, 1888. Empreendeu uma ligação ferroviária entre Moçamedes e o Bié, em Angola.  
Comissário do Governo Português para a delimitação das fronteiras com o Transvaal. (Junho-Julho 1890)
Governador de Moçambique (Julho de 1890 - 02-08-1891)
Tenente Coronel em 30-06-1892.
1º Governador do Território da Companhia de Moçambique (Junho 1892 - Janeiro de 1897) Construção do C de F. do Pungue (fins de 1892, com 120 Km, em fins de 1893. (licença de 9 Outubro de 1894 a Junho de 1895)
Coronel em 21 de Novembro de 1895.
Governador da Índia (1897 - 1900) 
Governador de Moçambique (Maio a Outubro 1900)
Chefe da missão Portuguesa de delimitação da fronteira do Baroce, Angola, 1902
Fez parte da Comissão do Caminho de Ferro de Mormugão e deslocou-se a Londres para negociar as respectivas tarifas (1902)  
Comissário Régio nas Conferências Luso-Chinesas para a delimitação de Macau 1909-1910.
Governador de Moçambique (Abril 1914 - Maio 1915)
Foi sócio da Academia das Ciências e recebeu a condecorações de Comendador e Grande-Oficial da Ordem Militar de Avis, Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada e Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, Ordem de S. Miguel e S. Jorge de Inglaterra, conferida em 1903 por Eduardo VII, aquando da sua coroação e Medalha de Serviços Relevantes no Ultramar. 
Recebeu ainda diversas homenagens em Portugal, Angola e Moçambique incluindo o busto da autoria do escultor António Augusto da Costa Mota, que esteve durante muitos anos na embaixada portuguesa em Maputo e está desde 2017 junto à casa de Joaquim José Machado, em Benfica, Lisboa.
Foi autor das seguintes obras: 
Moçambique. Sociedade de Geografia de Lisboa. 1881. (reune 3 comunicações proferidas em Dezembro de 1880).
O Caminho de Ferro de Lourenço Marques, parecer da Comissão africana e informação apresentada pelo vogal J. J. Machado. Sociedade de Geografia de Lisboa. 1882

NB 2: Note-se que condutores era a classe ou categoria profissional depois e até ao 25 de Abril  equivalente a agentes técnicos, depois redenominados engenheiros técnicos com 3 anos de ensino pós liceal. Em tempos actuais pós Bolonha e de ensino pós secundário unificado os condutores seriam licenciados em Engenharia (de 3 anos) enquanto que os Mestres actuais em Engenharia (5 anos) correspondem aos tradicionais Engenheiros pré Bolonha (5 anos).

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