Como vimos
neste e
neste artigo conhecemos a foto duma
casa na Maxaquene onde, em 1899, viviam ou estavam um cidadão alemão, Theo Wandschneider que sabemos foi comerciante na cidade e um colega possívelmente holandês de que desconhecemos a identidade. Tentamos aí ver se a conseguiamos localizar na cidade através doutras fotos mas como disse aí conclui era "missão impossível" e essa situação manter-se-á.
Falhado esse objectivo primário tentemos saber onde era a Villa Hoheluft (Altos Ares) que foi uma ou outra das residências da família Wandschneider. Conhecemo-la dum dos artigos já referidos sobre essa família em LM e duma foto, disponibilizada pela sua descendente Barbara Peo à memória de quem esta pesquisa é refeita. FOTO 1 (três casas mais a de Theo na Maxaquene em 1899)
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Três vivendas com nomes em alemão, entre cerca de 1900 e 1910 Em medalhão: a casa na Maxaquene onde estavam Theo e colega em 1899 |
Destas três vivendas com nomes em alemão, ao centro estava a Villa Hohenfelde (Campos Altos) e à direita a Villa Uhlenhorst, o nome duma zona em Hamburgo, por acaso da região donde Theo, o "patriarca" era originário. À esquerda estava a Villa Hoheluft (Altos Ares) que podemos ver não é a casa de Theo e colega que aqui era a nossa prioridade localizar e que colocamos no medalhão e vemos também que nenhuma das outras duas o é.
Foquemo-nos então nessas duas vivendas à direita da FOTO 1 e em alguns elementos da sua construção:
FOTO 1.1 (parcial e com marcas)
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Amarelo: rua passando em frente às casas e descendo descer para a direita (os beirais dos telhados mostram a linha horizontal) Laranja: pau de bandeira da Villa Uhlenhorst Roxo: anexo nas traseiras da Villa Uhlenhorst Verde: Água furtada da Villa Hohenfelde virada para a Villa UhlenhorstQuadrado preto: perfil do telhado, cobertura da varanda e ligação entre eles da Villa Uhlenhorst
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Atendendo ao tipo de vegetação, ao declive do terreno, à disposição das casas e ao que sabemos da urbanização da cidade e na distribuição das suas classes sociais e económicas pelas suas diferentes áreas tenho a expectativa de que as vivendas da FOTO 1 fossem da encosta da Maxaquene, a zona também atribuida à
casa de Theo. Ela fica na faixa que desce da Av. 24 de Julho para a av. Lumumba, antiga Av. Brito Camacho e próxima da Av. Allende, antiga Princesa Patrícia e teríamos por aí uma "pequena Alemanha" em LM.
Nesse caso, se as três casas estivessem por aqui (
google maps) que é zona da
Casa Velha (1) e que pelo facto da rua descer para a direita seria do seu lado a leste = nascente e essa rua seria uma das "verticais" da cidade, as que ficam na direcção aproximada Norte-Sul e paralelas às que ligam a Baixa e a Alta da cidade.
De notar que essa zona da Maxaquene estava bem localizada, era relativamente elevada em relação à Baixa e ao pântano pelo que recebia aragem fresca do estuário e tinha a vantagem em relação à Ponta Vermelha (PV
por aqui ao centro) de ficar mais próxima da Baixa onde à época se localizavam os serviços públicos, o porto e os estabelecimentos comérciais e indústriais (2).
Do que nos parece ser essa zona há uma foto de J&M e legendada em inglês "Berea - bairro residencial de LM" e que conhecemos daqui (3)
. Ora nesta foto, apesar da pouca definição, vê-se dois paus de bandeira (4) e focando-nos no da esquerda parece-me que aponta à posição da Villla Uhlenhorst, a da direita na FOTO 1.1.
FOTO 2
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Castanho: presumo que estrada da Ponta Vermelha, actual Lumumba, na crista da barreira da Maxaquene Amarelo: estrada perpendicular à anterior, seria a que passava na transversal na FOTO 1 Laranja: pau de Bandeira da Villa Uhlenhorst Roxo: anexo da Villa Uhlenhorst Verde: Villa Hohenfelde (Campos Altos) - ver a água furtada como na FOTO 1Quadrado preto: perfil do telhado, cobertura da varanda e ligação entre eles |
Os pontos principais de concordância entre as FOTOS 2 e 1.1 seriam o perfil do telhado, da cobertura da varanda e da ligação entre eles dentro do quadrado preto e a água furtada da Villa Hohenfelde (Campos Altos). Nesta FOTO 2 não conseguimos ver a Villa Hoheluft (Altos Ares) mas ela estaria na posição mais distante, encoberta por árvores e/ou poderia ter sido construida depois, mas para ter encontrado o local parece-me suficiente termos localizado duas das três casas.
Penso assim ter elementos suficientes para localizar a "pequena Alemanha", constituida pela casa de Theo e pelas três da FOTO 1 na encosta da Maxaquene (5).
Quanto à localização mais precisa presumo que a estrada marcada a amarelo, que seria a que passava na transversal na FOTO 1 e em frente às três "villas", fosse a actual Av. Allende, inicialmente estrada da Maxaquene e depois Princesa Patrícia, que é a mais importante nessa zona e com essa direcção. Na FOTO 2 ela estaria a descer do lado mais alto à esquerda (onde para o fundo passaria na transversal a Av. 24 de Julho, no caso desta estar já traçada no terreno) para a crista da barreira à direita onde passava a Estrada da Ponta Vermelha, a actual Av. Lumumba, que suponho seja a via marcada a "castanho" e que sigo uns ano uns mais tarde, já com os carris do carro eléctrico colocados,
aqui.
Assim podemos ver como estava essa zona uma dezena de anos depois da FOTO 2 com a estrada da Ponta Vermelha, a marcada de "castanho escuro", já pavimentada:
FOTO 3
Antiga Estrada da Ponta Vermelha na Maxaquene a caminho da Ponta Vermelha.
Encosta a subir à esquerda para o lado da Av. 24 de julho
É possível que no entroncamento que se vê à esquerda se esteja a chegar a antiga "estrada amarela" das FOTOS 1.1 e 2. Seria este então o aspecto dessa zona por volta de 1910 em que se observa que continuaria com pouca densidade de construção. Presume-se que houvesse vivendas do lado esquerdo = norte devido aos muros e portões da propriedades mas estariam afastadas da avenida.
Vejamos então como era essa zona nos anos 60 e como é na actualidade, em que a estrutura e a maior parte dos edifícios se mantém. Como se pode ver por aqui (
google maps) para a direita=leste da Av. Allende (o seu antecedente seria a rua "amarela" das FOTOS 1.1. e 2) não há ruas entre as avenidas Lumumba (seria a rua "castanha") e a 24 de julho (não se via nessas, estaria afastada para a esquerda para o fundo, respectivamente). Se compararmos essa zona com a maioria do resto da cidade em que a retícula é "de rigueur" isso aponta-nos a que tivesse sido ocupada muito cedo, de forma quase caótica, e que não tenha conseguido "recuperar" completamente depois, o que é natural porque refazer a sua topologia teria exigido muitas demolições e indemnizações. E de facto olhando para a FOTO 1 a posição das casas mais próximas já parece obedecer a um plano estruturado em volta da "estrada amarela" mas as demais casas espalhadas pela zona não tinham por exemplo as frentes paralelas ou perpendiculares como teria se estivessem a obedecer a um plano "militar" ordenado.
Mas com o passar dos anos o grande quarteirão onde estaria a "pequena Alemanha" tornou-se densamente ocupado e foi necessário abrir-se acessos para o seu interior (6). Pode-se ver aqui que do lado da Av. Allende (a que seria a rua "amarela" do antigamente) há pelo menos 2 entradas no espaço público para dentro do quarteirão e suponho que a Villa Hoheluft (Altos Ares) "casa vermelha" estivesse virada para a entrada maior e que fica mais a sul = ao nível mais baixo das duas na encosta (seria a entrada que tem agora o prédio com o Café 3D na esquina). Vejamos então uma foto da zona nos anos 60 mas em que penso já não se encontravam índices de nenhuma dessas três vivendas da FOTO 1 e que pudessem confirmar o que aqui coloco como hipótese, mas assumindo que ela é válida podemos tentar ver onde teriam estado:
FOTO 4
Verde: Av 24 de julho
Castanho: antiga estrada da Ponta Vermelha, actual Lumumba,
paralela à crista da barreira (fica próximo para o canto inferior direito da foto)
Amarelo: Av. Allende, antiga Pr. Patrícia para onde duas das villas da FOTO 1 estavam viradas
Violeta: hipotética posição da Villa Uhlenhorst
Verde claro: hipotética posição da Villa Hohenfelde (Campos Altos)Vermelho: hipotética posição da Villa Hoheluft (Altos Ares), virada para um rua sem saída
Como se pode verificar na FOTO 4 nos anos 60 já não haveria nesse quarteirão muitas vivendas antigas (umas das poucas excepções será mesmo a já referida
Casa Velha). Essa zona era bem situada e mesmo antes do fim da sua vida útil teria havido interesse económico em que dessem lugar a novas construções mais rentáveis. Por isso, só com fotos contemporâneas da FOTO 2 e/ou mais antigas que a FOTO 4, fossem elas de panorâmicas da zona ou individuais das casas, seria possível confirmar estas hipóteses. Mas fotos dessas são raras, pelo menos que estejam disponíveis na net, e por isso e para já é o que podemos fazer sobre este tema.
(1) Por exemplo é por aí que fica a Casa Velha, que é uma outra casa burguesa típica da época dessas duas, o que aponta para a urbanização da zona ter acontecido por volta de digamos 1900-1905 (Casa Velha aqui no Google Maps ao centro, Teatro Mapiko por trás?) (2) Note-se que a (e foi a única durante muito tempo) estrada para a Ponta Vermelha (PV) seguia junto à crista da barreira e por isso passava (antes) pela zona da FOTO 2 ("linha castanha"). Mas ficando por isso a PV mais distante da Baixa da cidade do que esta zona, o que era um ponto negativo, a PV também seria mais fresca e teria com vistas melhores pois ficava no promontório entre a baía e o estuário e daí a PV ter sido desde cedo a zona socialmente mais previlegiada do burgo.
(3) O google diz que Berea em localidades significa "zona com água natural abundante" ou que no sentido bíblico evoca "um sentido de estudo religioso e de verdade e de comunidade". Mas o que observo em vários casos é que Berea no final do século XIX e início do século XX era nome dado em inglês a zonas mais elevadas e terá sido com essa origem e definição que terá aparecido em LM.
Todavia em LM o nome Berea, embora se referisse à parte alta, que mesmo nessa altura tinha uma área urbanizada de cerca de 3 a 4 km2 e que por isso era relativamente extensa embora estivesse ainda esparsamente edificada, presumo que não servia para identificar uma zona específica na Alta. Pode-se ver isso em duas fotos antigas com Berea aplicado a partes da Alta relativamente afastadas:
a. aqui de Lazarus tirada da zona da Maxaquene (a que suponho seja a da FOTO 2, mas essa foto foi tirada a olhar para leste em vez de ter sido para norte como no caso desta) e cobrindo a zona acima do jardim botânico e abarcando o Consulado Inglês e a Igreja Paroquial; b. aqui holandesa, com Berea escrito no seu canto inferior direito, tirada do alto da barreira no Alto-Maé para a zona do Cais Holandês. Disto tudo alvitro que na FOTO 2 a legenda "Berea - Bairro Residencial" significaria que se tratava dum bairro na parte alta e não que Berea fosse o nome do próprio bairro, ao contrário do que por exemplo acontece em Durban (ridge em Português é cume).
(4) Dois enormes paus de bandeira, o marcado e "laranja" e o mais ao centro, e tão próximos não é muito comum. Como me parece que estariam reservados a consulados ou instituições ligadas ao estrangeiro esse seria mais um indicador de que esta zona era habitada ou frequentada por "expatriados" de certo nível.
(5) Na FOTO 2 viam-se mais vivendas espalhadas pelas encosta e a sua disposição não parecia muito ordenada. Temos nesse caso a vivenda "castanho claro" e as duas mais próximas da objectiva que podiam ser pré-fabricadas e que não reconheço doutras fotos,
(6) Do lado norte deste quarteirão há a Rua da Demanda que parte na perpendicular à Av. 24 de julho para sul e que não tem saída indo até ao centro do quarteirão. Essa rua está já distante da zona que nos interessa e deve ter sido traçada depois do tempo da FOTO 2 ter sido tirada. A Av. 24 de Julho esteve no limite da urbanização da cidade até bastante tarde e ao tempo da FOTO 2 não devia ter sido aberta pois as infraestruturas da cidade foram progredindo da baixa para a alta.
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